VIH/SIDA – A “moral” que silencia e afeta o combate à doença

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

O primeiro caso de VIH-SIDA em Timor-Leste foi registado em 2003. Passados 16 anos, são 873 casos e 110 mortes. Muitos destes seropositivos não fazem tratamento e têm de lidar com discriminação e preconceito. Apesar dos números e do aparecimento de novos casos todos os anos, a estratégia da Comissão de Combate à doença foca-se nas “atitudes” e “moral”.

Tem 33 anos e é um jovem como todos os outros. Licenciou-se. Trabalha como funcionário público. Quer casar e ter filhos. Mas Domingos (nome fictício) guarda um segredo. É seropositivo. Foi em julho de 2007, na época de exames nacionais, que recebeu a notícia que lhe virou a vida do avesso. “O meu pai estava doente e foi internado no Hospital Nacional Guido Valadares [HNGV]. Precisava de sangue, por isso ofereci-me para ser dador e tive de fazer um teste ao meu estado de saúde. Uma semana depois, o pessoal do Banco de Sangue do HNGV ligou-me. Queriam falar comigo e explicaram que tinha esta infeção. Foi aí que soube que tinha contraído o VIH”, conta.

O choque foi grande. Inicialmente, recusou-se a aceitar a realidade e, só mais tarde, teve coragem para começar os tratamentos. “O meu cérebro ficou vazio, mas acabei por aceitar a realidade. Já com a cabeça fria, sugeriram-me fazer o tratamento para o VIH do HNGV”, conta sem olhar para a jornalista, para que ninguém no jardim percebesse que estava a dar uma entrevista, visivelmente incomodado com esta memória e coçando continuamente a perna.

Domingos sabe como contraiu a infeção: drogas e comportamentos de risco.

“Até os religiosos caem em tentação. Imagine-se eu, que sou uma pessoa normal? Quis experimentar tudo. Usei drogas e tive relações sexuais desprotegidas”

Domingos (nome fictício)

O jovem é um dos 873 portadores de VIH-SIDA registados até 2018 em Timor-Leste. O primeiro caso conhecido surgiu em 2003 e, desde então, os números não param de subir. Só em 2018, registaram-se 148 novos casos.

Como explica a Chefe da Unidade do VIH/SIDA do Ministério de Saúde (MS), Senna Viegas, esta infeção destrói as células responsáveis pela imunidade. “Como a imunidade diminui, a infeção continua a alastrar”, diz a médica. A SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) ocorre quando o VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) causa danos graves no sistema imunitário.

O VIH/SIDA pode ser transmitido através do sangue, com agulhas, seringas ou lâminas, de relações sexuais ou de mãe para o bebé durante a gravidez, parto ou amamentação. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, em inglês), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o VIH/SIDA (UNAIDS, em inglês) defendem que, quando usados consistente e corretamente, os preservativos são altamente eficazes na prevenção da transmissão sexual do VIH e de outras doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Ignorando práticas internacionais relativas à prevenção da doença, a Comissão Nacional de Combate ao HIV/SIDA em Timor-Leste (CNCS-TL) alterou o “C” do “ABC” (abstenção, fidelidade, preservativos) para “Controla-te”, uma estratégia criticada por profissionais de saúde e organizações da sociedade civil, que defendem mais informação sobre esta questão para a população em geral.

Uma política de combate ao VIH/SIDA que dá prioridade às “atitudes”

O Diretor Nacional de Saúde Pública, Pedro Canísio, recorda que o Ministério de Saúde (MS) tem um programa de combate para reduzir a infeção do VIH/SIDA em Timor-Leste. “O ministério continua a dar prioridade a esta infeção, por isso fazemos a sensibilização junto da comunidade em geral. Antes, estávamos focados apenas nos grupos de risco, mas agora queremos chegar a todos”, refere.

A CNCS-TL é, contudo, a principal entidade de luta contra a doença, tendo, entre outras, as atribuições de “dirigir, facilitar e apoiar o desenvolvimento do programa e plano estratégico de nível nacional e setorial para o VIH/SIDA” ou “coordenar o Programa Multissetorial de combate ao VIH/SIDA e respetivos planos de implementação”.

Segundo o Secretário-Executivo da CNCS-TL, o pastor protestante Daniel Marçal, esta comissão realiza campanhas nas escolas para os jovens, mas também para os pais e a comunidade. Efetua igualmente seminários para aprofundar o conhecimento e a compreensão da doença por parte da população.

Apesar do trabalho desenvolvido pelo MS e CNCS-TL, de acordo com o Inquérito Demográfico e de Saúde de 2016, levado a cabo pelo Governo, apenas 47% das mulheres e 66% dos homens entre os 15 e os 49 anos tinham ouvido falar sobre o VIH/SIDA.

À falta de informação junta-se a questão da estratégia da CNCS-TL. Conhecido pela sua posição conservadora e afirmações polémicas, o pastor Daniel Marçal reconhece que a comissão não está focada no VIH, mas nas “atitudes” que conduzem à doença, afirmando que não está a ensinar os jovens a terem “sexo livre”.

“Não podemos diminuir os casos de VIH, mas podemos reduzir as atitudes       de transmissão deste vírus”

Daniel Marçal, Secretário-Executivo da CNCS-TL

Aqui começa a discórdia. Daniel Murphy, o médico responsável pela Clínica do Bairro Pité, onde foram registados 200 casos de VIH/SIDA, refere que, à semelhança do que acontece no resto do mundo, a maioria das infeções em Timor-Leste se deve a relações sexuais desprotegidas. “A maioria dos jovens tem problemas, porque não usa o preservativo em relações sexuais com várias pessoas, quando recorre à prostituição ou em relações homossexuais. Por isso, o vírus infeta outras pessoas”, alerta o médico.

Segundo o Inquérito Demográfico e de Saúde de 2016, menos de metade dos inquiridos sabia que o uso de preservativos previne a transmissão de VIH: 26% de mulheres e 47% de homens. É o caso de Domingos que não estava consciente dos perigos e não usava preservativo nas relações sexuais.

 

“Antes não sabia. Só depois fiquei a saber que as drogas e relações sexuais desprotegidas tinham consequências”

Domingos

O diretor Pedro Canísio revela que, desde 2004, que a CNCS e o MS pensavam alterar o “C” (uso do preservativo) para “Controla-te” “por ser uma questão muito sensível e polémica junto da sociedade civil e de outras organizações”. No entanto, reconhece que, como profissional de saúde, defende este método de proteção. “AB são bons, mas o C é muito sensível, porque há várias visões e perspetivas. Mas sou uma pessoa da saúde. Tem de se usar o preservativo como prevenção, segundo a teoria e com base nas evidências e política do Fundo Global [de Combate à SIDA]”, relembra.

Daniel Marçal argumenta que não proíbem os preservativos, mas partilham apenas informações sobre as atitudes junto da população. “Não proibimos o uso dos preservativos, mas não falamos desta questão em público. Vamos diretamente aos grupos de risco e falamos sobre este assunto. Por exemplo, uma pessoa que já tem esta infeção pode usá-lo para não a transmitir ao seu marido ou o marido à mulher”, afirma.

Contudo, quando questionado sobre a divulgação desta informação ao público em geral e se o uso do preservativo é uma questão de moral ou de saúde, o pastor defende:

“As pessoas que criticam dizem que o preservativo não é um problema de moral, mas de saúde. Isto é uma questão moral, porque autoriza as pessoas a usarem preservativo para terem relações livres, com uma ou duas mulheres e com dois ou três homens”

Daniel Marçal, Secretário-Executivo da CNCS-TL

Senna tem uma perspetiva oposta à do secretário-executivo da CNCS-TL e considera que a infeção do VIH/SIDA não é um problema de moral.

“Somos profissionais de saúde e consideramos que o VIH/SIDA é uma questão de saúde. Por isso, deveria ser usado o preservativo para prevenir. Os timorenses têm poucos conhecimentos sobre esta infeção. Não estamos a promover o preservativo para terem relação sexuais livres, mas para se protegerem”

Senna Viegas, Chefe da Unidade do VIH/SIDA do Ministério de Saúde

Apesar da preocupação do pastor, de acordo com o Inquérito Demográfico e de Saúde de 2016, as percentagens de inquiridos que afirmam ter múltiplos parceiros sexuais é muito baixa. Menos de um 1% das mulheres e 3% dos homens disseram ter tido dois ou mais parceiros sexuais nos últimos 12 meses.

Daniel Marçal recorda igualmente que a eficácia do preservativo não é total. “Segundo alguns estudos, o preservativo tem apenas 80% de possibilidades de proteger a saúde e 20% são dúvidas. Pode proteger ou não”, argumenta, perguntando à jornalista: “Por exemplo, se a mana tem uma irmã. Ela tem relações sexuais livres e você sabe que o preservativo protege apenas 80%. Qual é a mensagem que lhe dá? Para mudar as suas atitudes ou compra-lhe os preservativos para manter o seu comportamento?”.

Sabe-se, no entanto, que embora não elimine totalmente o risco de contrair a infeção, o uso consistente de preservativos reduz substancialmente este perigo. Dados de 2015 da OMS, do UNAIDS e da UNFPA indicam que os preservativos evitaram cerca de 50 milhões de novas infeções de VIH desde o início da epidemia.

Inês Lopes, Diretora-Executiva da organização timorense de seropositivos Estrela +, contraria também a posição do pastor e diz que o único método ao combate ao VIH/SIDA é o uso do preservativo. “É único caminho para prevenir o vírus: usar o preservativo. Não há mais métodos, porque o ‘A’ e ‘B’ são abstinência e jejum”. Inês sustenta igualmente que os timorenses têm poucos conhecimentos sobre educação sexual e, tendo acesso a informação, podiam prevenir a infeção.

“Não aceitamos que a CNCS-TL altere o “C” (uso do preservativo) para controlo. O controlo faz parte do ‘AB’. A comissão fez esta mudança sem consultar a sociedade civil”

Inês Lopes, Diretora-Executiva da Estrela +

Também o médico Daniel Murphy não concorda com a estratégia de combate à doença adotada pela CNCS-TL.

“Não há uma boa estratégia, não há bons resultados, porque, para haver bons resultados, devem ser usados preservativos e feitos os tratamentos”

Médico Daniel Murphy

Daniel Marçal responde às críticas: “O aumento do número de casos de VIH não é falhanço da comissão e do MS. É antes um progresso, porque em 2003 todas as pessoas tinham medo e vergonha de fazer o teste de sangue. Eram poucos e só conhecidos depois do internamento nos hospitais. Apenas dois ou três é que realizavam o teste. Os outros estavam escondidos. Mas agora as pessoas já têm consciência de fazer o teste de sangue”, afirma, apelando também: “Peço à comunidade que não se preocupe com o crescimento de casos de VIH. O número de casos aumentará e a comissão irá esforçar-se muito para partilhar informações junto da população de modo a que compreenda melhor, tenha consciência de fazer o teste do sangue para que [o VIH] não se transforme em SIDA”.

Os testes e o tratamento que muitos seropositivos não fazem

O VIH é uma infeção manhosa, porque permanece silenciosa durante anos. Domingos detetou a doença quando quis dar sangue ao pai. Nunca suspeitou que pudesse estar doente. “Tinha o VIH, mas não tinha sintomas. Fiquei muito agradecido por descobrir o problema antes que avançasse”, conta. “Uma vez contei a uma amiga minha que tinha o vírus, mas ela não acreditou e disse-me ‘Tu tens uma boa saúde e és forte”, acrescenta, rindo-se.

Daniel Murphy recorda que, apesar de as pessoas estarem infetadas pelo VIH/SIDA, durante cinco anos não se verificam sintomas. “O VIH/SIDA não dá sinais. Após cinco anos de infeção, as pessoas ainda se sentem bem. Depois são afetadas por outra doença, como a tuberculose, e confirma-se que o vírus já se encontra num estado avançado”, diz.

O médico defende, por isso, a realização de testes de despistagem. “É melhor que todas as pessoas de 13 anos para cima façam os testes. Se os resultados forem positivos, devem fazer tratamento para reduzirem, reduzirem, reduzirem o vírus e não transmitirem a doença [atingindo uma carga viral indetetável]”, sublinha o médico. O diretor Pedro Canísio refere também a importância de as grávidas efetuarem os testes de modo a não infetarem o bebé.

No entanto, como refere a Parteira Conselheira e Responsável pelo Tratamento Antirretroviral do HNGV, Elisa Damas, são poucos os que pedem voluntariamente o teste. A maioria fá-lo por precisar de atestados médicos.

“Quando os resultados são positivos, é necessário iniciar a terapêutica e dar aconselhamento para que o seropositivo não fique em choque. Temos de explicar que a infeção do VIH é como a hipertensão ou uma doença renal para os infetados poderem aceitar, evitar o estigma, a discriminação, valorizar-se, preparar-se mentalmente para viver com a sociedade e família e cooperar para fazer tratamentos”, sublinha.

Murphy não concorda com a estratégia de desdramatização da doença e acredita que é necessário alertar. “Tu tens o vírus do VIH. Não se cura, mas pode controlar-se. Este vírus é muito perigoso, porque pode transmitir-se para outra pessoa. Deves ter cuidado, não trocar agulhas nem ter relações sexuais sem borracha [preservativo]”, diz o médico de forma ameaçadora, de dedo em riste, imaginando que tem à sua frente um doente.

A única forma de controlar eficazmente os níveis de VIH é o tratamento antirretroviral, que obriga à toma, para o resto da vida, de medicamentos que reduzem as quantidades de vírus no corpo a níveis indetetáveis e permitem a recuperação do sistema imunitário. Como refere Canísio, é importante que os seropositivos façam o tratamento e reduzam o vírus para poderem manter as suas atividades normais. “O Governo garante que todos os locais de tratamento para seropositivos têm medicamentos”, afirma.

Domingos segue religiosamente a terapêutica. No primeiro ano, tomou apenas Cotrimoxazole para evitar infeções oportunistas e depois iniciou os antirretrovirais. “É necessário obedecer às regras do tratamento, tomando os medicamentos diariamente”, alerta.

Existem, porém, 486 doentes que não se tratam ativamente, o que segundo a Murphy, se deve “à vergonha” da infeção. Segundo a diretora da Estrela +, por causa de questões de discriminação, os seropositivos perderam confiança nos profissionais de saúde, pelo que a organização e o UNFPA divulgam informações junto destes profissionais e comunidade para que os doentes se possam dirigir ao hospital, fazendo os testes e tratamentos.

Culpabilização, estigma e discriminação

Controlado, o VIH permite fazer uma vida normal. O que pesa mais, o que pesa realmente muito, sobretudo numa sociedade conservadora como a timorense, é a culpabilização, o estigma e a discriminação. De acordo com Domingos, para a maioria dos seropositivos, esta doença é dura. O jovem considera que é necessária uma estrutura psicológica forte que permita que o doente se mantenha calmo. “O VIH é uma doença que afeta diretamente a nossa psicologia, por isso não se pode entrar em stress. O mais importante é manter calma e paciência”, diz. Dados de 2017 da Estrela +, recolhidos para o Índice de Estigma com o VIH em Timor-Leste mostram que a doença afeta a autoconfiança dos seropositivos timorenses e promove sentimentos de culpabilização, vergonha ou mesmo pensamentos suicidas.

Inês Lopes, a diretora da Estrela +, diz que esta associação procura lutar pelos direitos dos seropositivos timorenses e combater a discriminação. “A maioria dos seropositivos sofre de discriminação. Isto viola os direitos humanos. É preciso envolver também os religiosos para que apoiem, através de ações de sensibilização, de modo a que população tenha conhecimentos sobre o VIH e reduza o estigma e discriminação. Temos de criar um bom ambiente, sobretudo para a comunidade aceitar, compreender as condições de vida, dar apoio e respeitar os direitos dos seropositivos. Alguns perderam-nos e estão vulneráveis devido ao estigma e discriminação da própria família”, afirma.

Na família de Domingos, apenas os dois irmãos e o seu pai, que lhe dá muito apoio, sabem que é seropositivo. “Quando soube que tinha esta infeção, confiei no meu pai e nos meus dois irmãos, que compreenderam bem a situação”, diz. No entanto, no ano passado sentiu receio de que todos descobrissem o seu segredo: “O meu irmão estava bêbado. Tivemos um desentendimento e ele gritou no meu bairro, para que os habitantes pudessem ouvir, que eu era seropositivo e, assim, ficasse marginalizado, abandonado, sem valor. Toda a população na minha aldeia ouviu, mas não acreditou, porque o meu irmão estava alcoolizado”, conta.

O VIH não matou os sonhos de Domingos. Acredita que um dia, mesmo conhecendo o seu estado de saúde, alguém vai olhar para ele como pessoa e não como uma doença. “Tenho um sonho. Quero casar com uma mulher que aceite a minha condição. A minha namorada tem de ser uma pessoa aberta para poder aceitar esta realidade”. “O amor é forte e vai mudar tudo”, acrescenta com convicção. Domingos já não pode mudar o passado, mas quer ser aceite e amado, sem preconceitos ou julgamentos morais. São estes preconceitos e a moral que o silenciam, a ele e a muitos seropositivos timorenses, obrigando-o a esconder a infeção dos outros, a uma entrevista às escondidas e com um nome que não é o seu. A mesma moral que afeta o combate à doença no país.