Vidas suspensas pelo desemprego e falta de rendimentos

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Díli- Muitos trabalhadores do setor privado perderam o emprego após a declaração do estado de emergência, na sequência do primeiro caso confirmado de covid-19 em Timor-Leste, uma medida para conter um possível surto da doença, que já matou mais de 200 mil pessoas a nível mundial. Mas a saúde deixou de ser a principal preocupação de muitos. Para alguns timorenses, o objetivo de cada dia é apenas conseguir alimentos para a família.

É o caso de Bonifácio Tavares, que trabalhava, antes do estado de emergência, numa fábrica de blocos, em Comoro. Está atualmente desempregado, pois a empresa encontra-se, há dois meses, encerrada devido ao estado de emergência.

“Trabalhava na Mira Mar Block. Não tenho emprego agora, pois a empresa está fechada”, disse Bonifácio ao Timor Post, nesta terça-feira (28/03), no Bairro de Fomento.

É de Maliana, do Município de Bobonaro, mas vive em Díli com os dois filhos. Bonifácio tem agora de encontrar meios para conseguir sobreviver e sustentar a família. Junta-se, então, todos os dias aos motoristas que alugam as suas camionetas para transporte de areia e pedras, na margem da Ponte de Comoro II, com a esperança de que alguém possa vir comprar estes materiais e, assim, ajudar os motoristas no carregamento, ganhando um ou dois dólares para alimentar a família.

Bonifácio diz que, neste período do estado de emergência, as pessoas com dinheiro têm mantimentos suficientes, mas não é essa a sua situação. A sua esperança está agora no subsídio que o Governo deverá atribuir às famílias mais carenciadas. Pede, por isso, que este apoio seja acelerado para travar a fome entre os timorenses durante o estado de emergência.

Esta situação não afeta apenas Bonifácio. Também outros timorenses perderam a fonte de rendimento durante o estado de emergência e estão com dificuldades em conseguir um saco de arroz.

Sebastião Martins é de Ermera e tem 43 anos. Junta montes de areia para venda, que, desde o estado de emergência, ninguém compra. Perdeu assim os 45 dólares diários que conseguia com a venda.

“Antes do estado de emergência, havia pessoas a comprar a areia. Uma carrada custa 45 dólares, mas agora ninguém compra. Não temos dinheiro para comprar arroz, nem uma lata dele”, diz.

Para conseguir sobreviver, Sebastião faz o mesmo que Bonifácio. Junta-se aos motoristas para os ajudar e conseguir ganhar um dólar. Mas, às vezes, nem um centavo ganha e volta para casa de mãos vazias. Apesar disso, ganha coragem e regressa no dia a seguir à ponte.

“Todos os dias, junto-me a estes motoristas. Caso alguém queira alugar o carro, também vou com eles para os ajudar e posso ganhar algum dinheiro. Mas, durante o estado de emergência, ninguém vem cá alugar as camionetas. Sentamo-nos durante todo o dia e regressamos a casa”, conta.

Também o motorista de camioneta Joanico Soares confirma que, durante o estado de emergência, ninguém aluga a sua viatura. Sai de casa às 08h00 com a sua camioneta, dirige-se à margem da Ponte de Comoro III e aguarda. Mas ninguém vem. E é assim todos dias.

Para o motorista, a renovação do estado de emergência põe em risco muitas famílias.

“A extensão do estado de emergência é uma grande ameaça para a nossa vida. Não temos nada para sustentar as nossas famílias. Neste momento, é muito difícil. Já não temos arroz em casa. Como é que o vamos comprar?”, questiona.

Já outro motorista Bastião Soares pede ao Governo que seja já atribuído o subsídio para que possa comprar arroz e óleo e, assim, poder aguentar durante esta crise.

“Peço ao Governo que distribua já o arroz por cada família para que possamos enfrentar esta situação até que tudo normalize”, apela.

Bonifácio, Sebastião, Joanico e Bastião aguardam todo dia na esperança de levar algo para casa, mas voltam com as mãos vazias, esperando que o dia de amanhã seja melhor. São vidas suspensas. Até que tudo volte ao que era. (yto)