Um dia na vida de vendedores de fruta

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Manuel Soares caminha diariamente quilómetros com um grande peso sobre os ombros para poder ajudar a família

Reportagem de Isaura Lemos de Deus

Manuel Marçal Soares circula por Colmera. É mais um de muitos vendedores de fruta que andam pelas ruas da capital, os chamados ‘ai-leba’. Vende habitualmente fruta perto do supermercado Páteo. Quando a jornalista se aproximou de Manuel Soares para o entrevistar, este aceitou de imediato, acenando afirmativamente com a cabeça.

Manuel tem 21 anos. É do Posto Administrativo de Laulara do Município de Aileu. Decidiu ser vendedor devido às condições precárias da sua família.

“Vendo esta fruta para ajudar os meus irmãos a pagarem as propinas, porque os meus pais, como são idosos, já não têm mais forças. São agricultores. Tenho um irmão que é motorista e mais quatros irmãs”, conta com um sorriso.

 O jovem diz, com alguma tristeza, que o sonho de vir a frequentar o ensino superior se desfez devido às carências económicas familiares.

Conta que tem de se deslocar a pé e fazer vários quilómetros até chegar ao suco vizinho, em Dare, Posto Administrativo de Vera Cruz para então comprar a fruta no valor de 100 dólares americanos. O regresso a casa faz-se por estrada fora, num percurso que leva três horas, transportando ao ombro a fruta por meio de uma vara.

 “Todos os dias, acordo às 04 horas da madrugada para tomar banho e tomar o pequeno almoço. Ao acordar, a minha mãe já tem o matabicho pronto em cima da mesa. No final, saio de casa às 06 horas da manhã e inicio o caminho a pé até Díli. Vendo um cacho por dois dólares e num dia excelente posso ganhar até 150 dólares”, narra.

A cerca sanitária imposta na capital desde o passado dia 8 de março trouxe dissabores ao jovem Manuel, que se viu impedido de usar os transportes públicos, nomeadamente a microlete em direção a Díli. À luz das novas medidas restritivas, ninguém pode entrar e sair da capital.

“Depois de duas horas de caminhada, chego por volta das 08 horas a Díli para vender a fruta. Apesar de não conseguir vender tudo até às 06 horas da tarde, tenho de regressar a minha casa. Se encontro alguém conhecido, dá-me boleia. Senão vou andando a pé até chegar a minha casa”, diz, ao mesmo tempo que olha para as viaturas que circulam na via.

O pouco dinheiro que recebe ao final de mais um dia de trabalho é entregue à família. Com a cerca sanitária imposta em Díli, a situação tornou-se mais penosa para o jovem Manuel. “Quando chego a casa dou todo o dinheiro aos meus pais para comprarem alimentos. Se precisar de algum, peço-lhes. Normalmente ganho muito pouco e com a cerca sanitária, a situação tornou-se mais difícil. Tenho de comprar a água e comida. Vendo diariamente debaixo de um sol escaldante, pelo que preciso de ingerir muita água”, acrescenta.

Os dias de Manuel Soares são passados de forma monótona sem tempo para conversar com os seu colegas, porque se preocupa apenas em vender a fruta.

“Nunca me sinto cansado. Tenho a obrigação de ajudar os meus pais.  Apesar de ser muito pesado, esforço-me para a transportar aos meus ombros”, sublinha.

Também Alexandrino Tilman, de 30 anos. É um ‘ai-leba’ de fruta. Vive em Díli, no mercado de Taibessi. É casado e tem um filho de dois anos. Frequentou apenas o Ensino Básico.

“Os meus pais são agricultores. Não tinham dinheiro para me pagar os estudos. Por isso, tive de deixar a escola”, conta.

Alexandrinho Tilman mostra-se preocupado com o facto de os timorenses consumirem muito pouca variedade de fruta.

“Vendo diariamente vários tipos de fruta. Se as pessoas comprarem tudo, posso obter 100 dólares por dia. Mas, em Timor-Leste, as pessoas raramente consomem fruta. Isto complica-nos a vida”, afirma sem olhar para a jornalista, no preciso momento em que é interpelado por um colega para se dirigir a um possível comprador.

Tal como o Manuel Soares, também Alexandrino considera que o cumprimento das regras impostas pela cerca sanitária e confinamento domiciliário obrigatório trouxe um forte impacto para as vendas. Conta que se vê obrigado diariamente a deitar ao lixo parte da fruta por ter, entretanto, apodrecida.

“Ao não conseguir vendê-la, acabam por se estragar. Tenho de deitar tudo ao lixo. Com isto, perdi muito dinheiro. Compramos todas as frutas por 100 dólares americanos. Posso ganhar até 30 dólares. Contudo, agora é quase impossível obter qualquer lucro”, conta com tristeza.

Apesar de todas estas contrariedades, Alexandrinho Tilman diz preferir ser ‘ai-leba’ do que um funcionário que trabalha para uma instituição, porque “um vendedor ganha diariamente algum dinheiro”.

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