Um dia na vida de um ‘ai-leba’

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

Angelino Martins não tem casa. Dorme no Mercado de Taibessi, onde compra a fruta que transporta diariamente de uma ponta à outra da cidade.

Encontramo-lo em Bebora, Díli. Angelino Martins é um dos muitos vendedores de fruta que circulam pelas ruas da capital, os chamados ‘ai-leba’. Está a lavar as mãos perto do restaurante Dilicious Timor. Com as roupas molhadas pela transpiração e visivelmente cansado, parou um pouco para se lavar e refrescar, aproveitando a água que cai dos tanques.

Angelino tem 28 anos. É de Lekidoe, em Aileu, onde os três filhos vivem. Neste momento, mora, aliás, dorme no Mercado de Taibessi, para onde regressa às 18h, depois de um pesado dia de trabalho. O colchão é a terra batida. A casa uma qualquer banca de um vendedor. “Vivo com os meus colegas no mercado. Não temos lugares próprios para dormir. Temos de ver quando os outros vendedores regressam a casa para aproveitarmos para descansar debaixo das suas mesas”, conta com tristeza.

As “casas” temporárias, de pouco mais de um metro, servem apenas para fechar os olhos e descansar pouco, porque, de madrugada, os ‘ai-leba’ têm de acordar para comprar a fruta que vão vender e transportar ao longo do dia. “Tenho de acordar às 04 horas da madrugada para comprar a fruta no Mercado de Taibessi. Depois, tenho de prender estes frutos ao pau, uma tarefa que demora  duas horas”, conta o jovem. Esta é a sua rotina diária. Vai de uma ponta à outra da cidade, de Taibessi ao Timor Plaza, carregado com dezenas de quilogramas de fruta.

Quando tem sorte, ganha 20 dólares. Nos piores dias, fica-se pelos 10 dólares, o que quase não dá para cobrir as despesas. Às vezes, vê-se obrigado a deitar a fruta estragada ao lixo e é mais um dia perdido. É mais um dia que não consegue juntar dinheiro para a família.

“Tenho de vender diariamente fruta por não ter outro trabalho”, conta sem esconder o cansaço. Acrescenta que teve de deixar a sua família em Lekidoe para trabalhar em Díli.  “Encontro-me com eles uma vez por mês. Tenho muitas saudades, mas é assim a vida. Envio o dinheiro, muitas vezes, através dos transportes públicos”, diz.

“Sou casado e tenho três filhos, um rapaz e duas meninas. Os mais velhos já estão no 1.º ciclo do ensino básico. Por isso, tenho de me esforçar muito para sustentar a minha família, enviar os filhos para a escola e comprar comida. Mas não é só isso. Sustento também os meus pais, pois vivemos juntos na mesma casa”, diz.  Quando não consegue ganhar dinheiro suficiente, o jovem vê-se obrigado a pedir ajuda ao tio.

Angelino deixa-nos. Já se refrescou um pouco, mas ainda tem muita fruta para vender, muitos quilómetros para palmilhar e muito que transpirar. Resta saber se hoje consegue juntar algum dinheiro ou se é mais um dia perdido.