Um dia na vida de crianças vendedoras

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Foto: Maria e António (nomes fictícios) vendem no Mercado de Taibessi. Fazem parte dos 16,1% de crianças timorenses que trabalham

Reportagem de Isaura Lemos de Deus

“Lis, lis, lis [alho e cebola], mana lis. Vendo só por 25 centavos”, grita Maria (nome fictício). Podia ser mais uma vendedora como muitas no mercado de Taibessi, mas é uma criança. Tem 11 anos e vive neste mercado com os pais.  Usa um guarda-chuva para se proteger do sol, mas anda descalça, algo que não considera um problema. Já se habituou, como mostram os pés calejados. Podia estar ali a brincar, mas está a ajudar os pais que também são vendedores.

Maria conta que os seus pais queriam mandá-la para a escola, mas ela não quis e eles também não a obrigaram. “Começámos a vender aqui no Natal passado”, conta. Ainda não foi sequer registada. “O meu pai foi para Bobonaro para buscar a minha certidão de batismo, mas não quero ir à escola. Quero vender apenas alhos e cebolas para ganhar dinheiro”, insiste.

Segundo o Inquérito sobre o Trabalho Infantil em Timor-Leste em 2016, lançado em outubro de 2019 pela Direção Geral de Estatística do Ministério das Finanças e da Secretaria de Estado da Formação Profissional e do Emprego, com apoio técnico da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 67.688 crianças timorenses entre os 5 e 17 anos de idade, ou seja, 16,1% trabalhavam. Entre estas, 55% realizavam trabalhos perigosos. Cerca de 16,2% das crianças timorenses não frequentam a escola. Dos 43 mil meninos e meninas que nunca foram à escola, 6.455 estavam envolvidos numa atividade económica, 4.901 em trabalho infantil e 2.888 em trabalhos perigosos.

Voltamos a Taibessi. Aproxima-se agora António (também nome fictício), de 12 anos, magro e queimado pelo sol. Está a estudar no 3.º ciclo do Ensino Básico em Maubisse. Quando tem alguns dias de férias, é obrigado vir para Díli para vender morangos, porque os seus pais são agricultores. Tem de vir sozinho de angunang (carrinha de caixa aberta) de Maubisse para ficar alguns dias em casa do seu tio, em Bemori, Díli.

Acorda muito cedo para preparar a fruta, antes de ir para o mercado. A venda dos morangos começa às 08 horas da manhã. Cada caixa custa um dólar. Tem de vender tudo para voltar a Maubisse com dinheiro para os pais e os seus estudos.

“Devo vender os morangos, porque os meus pais me pediram. Se não vender, ficam zangados comigo. Tenho de vir cá sozinho para vender esta fruta. Venho de angunang e pago entre três a seis dólares para ir e voltar”, conta com tristeza. Consigo, de Maubisse, trouxe 27 caixas de morangos. Tem de regressar sem nada. Com estes dois dias de venda, ganha apenas 14 dólares, aos quais tem de descontar o dinheiro do transporte. Contas feitas, quando o transporte está mais barato, fica com 11 dólares.

“Quando volto para Maubisse, tenho de entregar tudo o que ganhei à minha mãe, que me dá 5 dólares. Uso-os para comprar cadernos e lapiseiras”, diz. António conta-nos também os seus sonhos: “Tenho de estudar muito para ser professor e, assim, posso ajudar os meus pais e os meus irmãos, porque sou o mais velho de três irmãos”.

O Chefe do Departamento da Monitorização da Comissão dos Direitos das Crianças, Cipriano das Neves, contou ao Timor Post no ano passado que, em 2018, foi realizada uma inspeção na aldeia de Golgota, no suco de Comoro, em Díli, e conseguiram entrevistar alguns menores, sobretudo de Oé-Cusse. As crianças contaram que, às vezes, enviavam cem dólares por mês aos pais e, como tal, ficavam contentes com a venda nas ruas, acabando por abandonar a escola.

Cipriano lembrou também que o trabalho infantil é um problema nacional e defendeu que o Governo tem o papel principal no combate a este flagelo, que tem vindo a aumentar de dia para dia por causa das dificuldades financeiras com que vivem muitas famílias.

Maria e António deixam-nos. Seguem em direções opostas, mas o caminho da infância é igual para os dois: sem brincadeiras, sem acesso a uma educação de qualidade. Sem direito a ser criança.

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