Timorenses prisioneiros do tabaco

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

Mais de 78% dos homens timorenses fumam. É um número preocupante, num país onde a prevenção tem muitas debilidades e tratamentos para abandonar o tabaco ou curar doenças causadas pelo tabagismo são praticamente inexistentes. O Regime de Controlo do Tabaco, em vigor desde 2016, não tem combatido o problema de forma eficiente.

Luciano Cipriano, de 34 anos, é mais conhecido por Lutu Baven. É este o nome que quer na reportagem para que os colegas jornalistas possam conhecer o seu caso. Começou a fumar aos 20 anos, depois de acabar o ensino secundário. No início só quis experimentar e, passados dois ou três meses, já não conseguia passar sem tabaco. Fumava um maço por dia e, mesmo sem dinheiro, tinha de o comprar. Por causa de problemas respiratórios, foi internado no hospital duas vezes. No último internamento, sentiu-se às portas da morte.

Também José Neves, de 29 anos, é jornalista e fumador ativo: “Há um mês comecei a reduzir a quantidade de tabaco. Antes, fumava dois maços por dia, mas agora apenas alguns cigarros que compro avulso”, conta com orgulho. José começou a fumar aos 15 anos, quando ainda frequentava o 3.º ciclo do ensino básico. “Quando iniciei, acabava um maço por dia. Após ter começado a trabalhar, já terminava diariamente dois maços, mas tudo isto dependia do dinheiro”, conta a rir-se.

Tal como aconteceu com José, para muitos timorenses, o vício do tabaco tem início na adolescência. Todos os dias, dezenas de alunos de escolas do 3.º ciclo se juntam para fumar fora do recinto escolar. Quando a jornalista se aproxima e lhes pergunta se fumam, começam a dispersar-se, gritando: “Não fumamos”. Só Juvinal Freitas, de 17 anos, fala connosco. É aluno do 9.º ano da Escola Básica Filial Nobel da Paz. Começou a fumar aos 14. Os seus pais sabem que é fumador.

“Na minha casa, os meus pais não fumam, mas eu, o meu tio e o meu irmão fumamos. Se não fumar, fico normalmente stressado. Fumo um maço por dia. Apesar de os meus pais me darem dinheiro para comprar comida, gasto-o todo em tabaco”.

Juvinal Freitas de 17 anos

Lutu, Juvinal e José fazem parte do elevado número de fumadores do país. Segundo os dados revelados pela BBC, em 2018, Timor-Leste era o país com o quarto maior índice de fumadores do mundo. 42,2% da população fuma. Entre os homens, a percentagem sobe até aos 78,1%. Um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) do mesmo ano indicava que Timor-Leste era um dos países com idade mais baixa em que é permitido comprar tabaco. Os jovens timorenses podem fazê-lo aos 17 anos. Dados de 2015 da OMS apontam também uma elevada percentagem de jovens fumadores, com 42,4%, um valor muito acima de outros países da região.

A OMS alertou ainda, em 2017, que sete milhões de pessoas morrem todos os anos devido ao tabaco, a principal causa evitável de doenças não transmissíveis e que mata metade dos fumadores. O tabagismo afeta sobretudo as pessoas mais pobres e é a principal causa de disparidades, ao nível da saúde, entre ricos e pobres. Mais de 80% das mortes registar-se-ão em países com baixos ou médios rendimentos até 2030. A OMS deixa ainda outro número aterrador: o tabaco poderá causar, durante o século XXI, mil milhões de mortes no mundo.

Perante os números preocupantes de Timor-Leste, esperavam-se das autoridades timorenses não só fortes medidas de combate ao tabaco como tratamentos para quem quisesse abandonar o vício. Esperavam-se igualmente respostas para os que já sofrem com doenças causadas pelo tabagismo, como o cancro. Mas está quase tudo por fazer. Apesar da aprovação do Regime de Controlo do Tabaco, a implementação está a falhar. Para uma fatia da população timorense, especialmente os homens, o futuro poderá não trazer nada de bom.

Se não fumar, morre. Mas, se fumar, morre mais cedo

Vários tipos de cancro (pulmão, laringe, faringe, esófago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga, colo de útero, leucemia), doenças do aparelho respiratório (enfisema pulmonar, bronquite crónica, asma, infeções respiratórias) e doenças cardiovasculares (angina, enfarte agudo do miocárdio, hipertensão arterial, aneurismas, acidente vascular cerebral, tromboses), úlcera do aparelho digestivo, osteoporose, cataratas, impotência sexual no homem, infertilidade na mulher, menopausa precoce e complicações na gravidez. Esta é a longa lista das doenças associadas ao consumo de tabaco.

O Chefe do Departamento de Controlo das Doenças Não Contagiosas do Ministério da Saúde, Frederico Bosco dos Santos, recorda que o tabaco tem substâncias químicas. “No tabaco, há 1.014 substâncias químicas diferentes, sendo que mais de 250 podem provocar cancro. Uma delas é a nicotina, que provoca tabagismo ativo”, afirma. A nicotina é um estimulante do sistema nervoso central que causa dependência química, física e psicológica e cujos efeitos interferem no organismo e no comportamento de quem fuma. É esta substância que faz com que, depois das refeições, José Neves tenha normalmente de fumar. Quando fica sem tabaco, sente-se “stressado”. “É difícil deixar de fumar, mas posso reduzir. O tabaco tem nicotina, que é parecida com o açúcar. Quero estar sempre a provar todo dia”, diz, sorrindo. Embora esteja consciente das consequências dos malefícios do tabaco, ainda continua a fumar. Sorri novamente. “O tabaco faz bem, porque esvazia totalmente o meu cérebro, me livra do stresse e me deixa satisfeito”, afirma.

Também Daniel Murphy, médico da Clínica do Bairro Pité, alerta para os perigos do tabaco: “Fumar é muito perigoso. Quando as pessoas fumam, podem vir a sofrer de bronquite, pneumonia e infeções pulmonares. Pode também, por fim, levar ao cancro dos pulmões e da bexiga”. O médico conta que a clínica recebe alguns pacientes com tuberculose, expetoração, tosse, febre e asma devido ao tabagismo. Sublinha também que o tabaco é responsável por muitas mortes no país. “Na Austrália, Portugal, América e Japão, as pessoas podem viver mais de 80 anos, mas aqui, com pouco mais de 50 anos, morrem”, diz. Neusa Lopes, médica pneumologista do Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), chama igualmente a atenção aos fumadores: “É importante que deixem de fumar, porque, embora tenham deixado de o fazer há cinco anos, a inflamação crónica nos pulmões pode levar à doença pulmonar obstrutiva crónica e os casos de cancro em Timor estão a aumentar”, revela.

Lutu Baven não estava consciente dos malefícios do tabaco. Apesar das ações de sensibilização do Governo e organizações não-governamentais, não queria ouvir, porque tinha um princípio: “Se não fumar morro, se fumar morro também” (“Fuma mate, la fuma mós mate”), uma frase que é lema para os fumadores timorenses. Só depois de dois internamentos hospitalares é que Lutu percebeu que podia morrer mais cedo devido ao tabaco. Na primeira hospitalização, no HNGV, os médicos já o tinham avisado para não fumar, mas, pouco mais de uma semana depois, teve uma recaída e regressou ao tabaco. Muito recentemente foi novamente internado e sentiu a morte de perto devido a problemas respiratórios. Também José reconhece que, além da questão financeira, o tabaco pode provocar doenças como o cancro, hipertensão e problemas cardiovasculares. “Tive problemas de saúde, sobretudo febre e tosse. Em 2016, consegui deixar o tabaco durante dois anos, mas depois de recuperar, voltei a fumar em 2018”, conta.

No entanto, o tabaco não tem consequências apenas para quem fuma. Como refere Frederico dos Santos, o cigarro afeta diretamente os fumadores passivos, que correm mais riscos do que os ativos. Além do elevado número de fumadores ativos, há outros timorenses a sofrer com o tabagismo. Numa pequena viagem de microlete, é frequente depararmo-nos com fumadores, motoristas ou passageiros. O fumo chega a mais de 13 pessoas, incluindo crianças. Ninguém confronta estes fumadores. Alguns passageiros tapam o nariz com a camisola. Outros fingem uma tosse súbita, mas os que fumam não compreendem ou fazem de conta que não entendem o incómodo de quem partilha o mesmo transporte. É também frequente encontrar quem fume em casa, junto dos filhos.  Lutu reconhece que fumava em casa, às vezes no quarto. “Enquanto o bebé estava no colo, não fumava, mas fazia-o perto dos meus filhos mais velhos. Às vezes, ficavam doentes e com tosse”, conta. Já José evita fumar junto da família. “Fumo fora de casa. Quando quero estar com a minha mulher e filho, a primeira coisa que faço é lavar os meus dentes para não passar o fumo do cigarro, sobretudo ao meu filho, porque os fumadores passivos têm riscos”, conta, rindo.

Em Timor-Leste, as medidas de prevenção do tabagismo são escassas e não é fácil nem abandonar o vício do tabaco nem tratar as doenças que este causa. O médico Daniel Murphy defende: “Deve fazer-se a sensibilização e a educação para combater o tabaco, mas deixar de fumar ainda é difícil”. Por isso, aponta o dedo às tabaqueiras. “As tabaqueiras sabem que o tabaco afeta a saúde, mas continuam a produzir”, refere. Sabe-se que, com as restrições ao consumo de tabaco na Europa e nos Estados Unidos, as tabaqueiras encontraram no Sudeste Asiático, com muitas fragilidades no combate ao tabagismo, um mercado com grande potencial e estão, neste momento, a investir fortemente na região.

Ainda no que toca à prevenção, Frederico dos Santos explica que, enquanto instituição pública, um dos papéis do Ministério da Saúde é prevenir o impacto do tabaco, pelo que procura promover ações de sensibilização e aproximar-se das instituições do Governo e não-governamentais. Relembra que o ministério lançou o programa-piloto “Geração livre de tabaco” no município de Ermera. “Quisemos lançar este programa para que os jovens deste município deixassem de fumar, mas são necessárias consistência e persistência por parte dos fumadores”, refere. Sancho Belito Fernandes, Gestor da Aliança Nacional de Controlo ao Tabaco em Timor-Leste (ANCT-TL), que trabalha também na questão da sensibilização, conta: “Recebemos apoio de uma universidade da Austrália para dar formação a fumadores ativos. Estes fumadores ganharam o vício, por isso são precisos uma intervenção e um método de aconselhamento psicológico durante dois anos. O método conseguiu que os tabagistas deixassem de fumar”, conta com orgulho. São pequenos passos no combate ao problema gigante que é o tabagismo em Timor-Leste. Nas escolas, como conta Juvinal, ainda não parece ter chegado informação sobre os perigos do tabaco. O adolescente diz que nunca assistiu a qualquer ação de sensibilização sobre os malefícios do tabaco e que os profissionais de saúde distribuem apenas medicamentos para parasitas intestinais.

Um dos principais fatores que impede uma prevenção mais eficaz do tabagismo é o preço baixo do tabaco. Maria, chamamos-lhe assim, vende, entre outros produtos, tabaco junto de uma universidade e perto de escolas do 3.º ciclo e do secundário. Fala-nos dos preços tentadores, até para os que têm os bolsos mais vazios, como os jovens estudantes: “Vendo cigarros das marcas LA, Surya e Marlboro. O maço LA custa um dólar e vinte e cinco centavos. Avulso, três cigarros custam vinte e cinco centavos. O maço da marca Surya custa dois dólares e avulso vinte e cinco centavos. O Marlboro custa um dólar e cinquenta centavos. Três são vinte e cinco centavos”, refere.

Fracas medidas de prevenção e preços baixos dos cigarros são sinónimo de um elevado número de fumadores. Mas com que apoio podem contar os que querem abandonar o vício? Existem, em muitos países, consultas médicas de cessação tabágica e medicamentos que ajudam o fumador a resistir ao tabaco, como pastilhas e adesivos que substituem a nicotina do tabaco e fármacos que atuam sobre o sistema nervoso, reduzindo a vontade de fumar. Em Timor-Leste, com o Regime de Controlo do Tabaco, além dos avisos para os malefícios deste produto e das imagens chocantes, os maços têm disponíveis um número de telefone para o fumador pedir uma consulta de cessação tabágica. Ligámos dezenas de vezes para este 113, mas o número está inativo. Questionado sobre o apoio que é dado aos fumadores, Frederico dos Santos responde: “A vontade, o ambiente, a família e o pessoal de saúde podem apoiar os fumadores a deixar o tabaco, mas ainda não temos medicamentos antitabágicos. Espero que os possamos ter no próximo ano”. Revela ainda que o Ministério da Saúde pretende criar alguns centros que ajudem os fumadores a largarem o vício. Por enquanto, ao nível da cessação tabágica, o que existe são apenas planos.

Por outro lado, como refere a médica pneumologista, não se tratam doenças oncológicas em Timor-Leste. Se o diagnóstico de cancro for precoce, alguns doentes podem ser enviados para hospitais estrangeiros. Os outros ficam à espera da morte.

“Quando o cancro já está num grau avançado, só podemos dar medicamentos para aliviar as dores. Também não há medicamentos para a doença pulmonar obstrutiva crónica.”

Neusa Lopes, médica pneumologista

E, em relação às doenças oncológicas, prossegue: “As pessoas com cancro em grau avançado precisam normalmente de quimioterapia e radioterapia, mas ainda não temos”, diz. A radioterapia e a quimioterapia são os principais métodos de tratamento do cancro no mundo. O primeiro consiste na aplicação de radiações diretas no local do tumor para eliminar as células tumorais e impedir que se reproduzam. Na quimioterapia, são usados químicos misturados no sangue do paciente para destruir células doentes. A médica recorda um caso de cancro dos pulmões. “Tive um caso de um rapaz de 18 anos. Começou a fumar aos 11 anos. Veio aqui já canceroso, mas conseguimos enviá-lo para o estrangeiro para tratamento, porque o grau ainda era baixo. Depois recuperou”, conta.

Implementação do decreto-lei ainda frágil

O Regime de Controlo do Tabaco foi promulgado pelo Conselho de Ministros em junho de 2016. O decreto prevê, entre outros aspetos, a proibição de fumar em determinados locais e a criação de espaços para fumadores, mas também a obrigatoriedade de etiquetagem dos produtos de tabaco, a proibição de publicidade e de venda a menores de 17 anos e em estabelecimentos de ensino, unidades de saúde e organismos da administração pública. Define ainda medidas de prevenção, tratamento e controlo do tabagismo.

Frederico dos Santos recorda que o decreto-lei n.º 14/2016 menciona que os fumadores não podem fumar em locais públicos, mas isso ainda acontece, nomeadamente em transportes públicos. “É preciso trabalhar em conjunto com as autoridades locais para se controlar e assegurar que não se fuma nos transportes públicos e em espaços públicos. Os menores não podem fumar, vender e comprar cigarros segundo esta lei”, lembra. O médico acrescenta: “Temos de colaborar com a polícia e a Direção Nacional de Transportes Terrestres para que não se continue a fumar nos espaços públicos, jardins e transportes públicos. Mas, em relação aos espaços públicos, a Comissão da Função Pública já enviou o despacho para os funcionários não fumarem nesses locais”. Para o médico, a implementação deste regime é um problema.

“Apesar de o Presidente da República ter promulgado a lei, de estar em vigor e mencionar também o papel dos ministérios, ainda não existem mecanismos para a sua implementação.”

Frederico dos Santos

Também Sancho Belito da ANCT-TL, uma associação que trabalha em três áreas, sensibilização para os malefícios do tabaco, monitorização e formação, destaca outra falha no Regime de Controlo do Tabaco: “Ainda tem fraquezas, porque a lei permite a produção de tabaco no país. Na perspetiva da ANCT, isto trará riscos para os timorenses. Se deixarmos as portas abertas e um dia houver produção de tabaco no país, aumentará o número de agricultores a produzir tabaco e as pessoas manterão o consumo. Por isso, continuarão a adoecer”, refere.

Um dos papéis da ANCTL-TL é a monitorização da presença do tabaco em espaços públicos: “Fizemos a monitorização a estes locais, mas, graças a Deus, o despacho da Comissão da Função Pública proíbe os funcionários de fumarem nos espaços públicos. Em alguns edifícios públicos ainda se encontram fumadores, mas em outros já não. Por exemplo, no Ministério das Finanças, fuma-se livremente. Junto a jardins infantis e escolas primárias, há vendedoras e quiosques perto. Infelizmente, não cumprem a lei”, acrescenta. A vendedora Maria, que tem a sua banca junto à universidade e a escolas, conta que uma parte dos seus clientes são menores, que compram cigarros avulso ou mesmo maços.

A venda de tabaco é, de facto, pouco controlada. A ANCT-TL efetuou, no ano passado, a monitorização a 207 comerciantes da capital de três tipos: vendedores ambulantes, de quiosques e de lojas. Os resultados mostraram que os vendedores ambulantes e quiosques ainda não cumpriam a lei, continuando a vender a menores e com embalagens sem a devida etiquetagem. No passado mês de setembro, verificaram que o número de embalagens ilegais tinha reduzido, mas algumas lojas ainda mantinham a publicidade ao tabaco.

Recorde-se que o Regime de Controlo do Tabaco prevê que as embalagens de tabaco contenham advertências sanitárias sobre os riscos do tabaco. A partir de setembro de 2018, o tabaco importado para Timor-Leste tem de alertar “Fumar mata” e conter imagens chocantes de doenças provocadas pelo tabagismo. A vendedora Maria conta: “Vendo apenas os cigarros com a embalagem, que contém imagens e avisos sobre as doenças provocadas pelo tabaco, que causa cancro, hipertensão, aborto, doenças do coração”. Segundo o gestor da ANCTL-TL, 45 vendedores já participaram numa formação sobre o decreto-lei, mas os atropelos à lei mantêm-se.

Foi preciso sentir a morte de perto para Lutu compreender que era prisioneiro do tabaco.

“Fui prisioneiro do tabaco. Estou traumatizado. Fumar pode matar-nos, tira-nos a vida e deixa-nos mais velhos”. Garante que já abandonou o vício: “Não, não quero voltar mais a fumar”.

Lutu Baven

Essa liberdade faz com que se sinta muito melhor. Entretanto, muitos timorenses mantêm-se prisioneiros do tabaco, num Estado que pouco faz para os ajudar a libertar do vício.