Timor Post – Primeiro jornal depois da independência e o primeiro a investir diariamente na língua portuguesa

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

O diário Timor Post comemora hoje o seu 20.º aniversário. Foi também o primeiro a publicar diariamente informação própria em língua portuguesa.

Tudo como começou com um sonho e, graças a esse sonho, nasceu no dia 29 de fevereiro de 2000, com o lema “Construir unidade, justiça e democracia”. O Timor Post foi fundado por 14 ex-jornalistas do Suara Timor-Timur (STT). A ideia partiu de antigos jornalistas que se deslocaram à Indonésia, em 1999, e que, depois do referendo, pretendiam criar um diário que contribuísse para a construção da democracia do país.

A atual Diretora do Timor Post, Santina de Araújo, conta, sem esconder o orgulho: “Fomos 14 os fundadores. Fomos à luta apenas com os nossos conhecimentos na área do jornalismo para criar o jornal. Era isto que queríamos”. Mas, como em todos os sonhos concretizados, não foi uma tarefa fácil. Um dos problemas era a falta de financiamento. Mas nem por isso baixaram os braços: “Naquela altura, não tínhamos nenhum capital ou fundos para criar o jornal. Esforçámo-nos, contudo, e apresentámos propostas, de instituição em instituição, sem que sentíssemos cansaço para atingirmos os nossos sonhos”, afirma.

José Maria Ximenes, Adérito Hugo da Costa, Otelo Ote, Suzana Cardoso, Santina da Costa Araújo, Rosa Garcia, Jacob Ximenes, Lourenço Vicente Martins, Ilídio de Carvalho, Domingos Freitas, João Barreto, Marcos Alves, Claúdio de Araújo Martins e Afonso da Costa, os fundadores, tinham já experiência no mundo do jornalismo que ganharam no Jornal Suara Timor-Timur (atual STL). O grupo contava com chefes de redação, jornalistas e pessoas ligadas à publicidade, distribuição e impressão.

Graças a um convite da agência Reuters para realização de um seminário na Austrália, encontraram-se com um jornalista australiano, o Bob Howard, através do qual conseguiram equipamentos, como computadores, para iniciar o trabalho. “A primeira publicação teve o apoio do Queensland Newspaper, em Brisbane, através de Bob Howard, que o Timor Post considera um pai. Com este apoio conseguimos, publicar, a 29 fevereiro de 2000, apenas em tamanho A3 e sem cor. Foi fotocopiado numa empresa australiana, através da impressão de um exemplar”, conta a atual diretora.

A primeira publicação do Timor Post coincidiu com a visita a Timor-Leste de Abdulrahman Wahid (Gusdur), Presidente da República da Indonésia. No Timor Post, estavam todos preparados para a cobertura e esta foi a primeira orientação do diretor Adérito Hugo, porque queriam colocar a fotografia de Gusdur na primeira edição. Quando a impressora avariou, o jornal foi obrigado a imprimir na gráfica Sílvia durante dez anos, até que, em 2015, o jornal conseguiu adquirir a sua própria impressora, a cores, inaugurada pelo então Presidente da República Taur Matan Ruak.

Do ano 2000 a 2005, o jornal só conseguia sobreviver graças ao apoio financeiro de agências internacionais. Em 2006, juntou-se a ajuda do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Foi com estes apoios que conseguiu pagar os salários dos jornalistas e outras despesas. Um dos momentos mais difíceis foi entre 2006 e 2007. Além da grave crise política que se instalou no país, os duodécimos deixaram o jornal numa situação muito débil. Mas sobreviveu e, partir deste período, começou a erguer-se autonomamente.

Santina de Araújo recorda também as mudanças editoriais. Antes a publicação, focava-se nas questões políticas, devido à história do país. A linha editorial é agora outra. O jornal procura dar ao público mais informações sobre assuntos sociais que afetam o país de modo a que o Governo possa tomar medidas.

Uma das novidades do jornal é atualmente o sítio de internet www.diariutimorpost.com, onde é diariamente disponibilizada informação em tétum, português e inglês, que será lançado este sábado (29/02).

Sonhos para o futuro? “Estamos a planear uma rádio e televisão”, diz a diretora com um sorriso.

O primeiro a investir diariamente na língua portuguesa, mas leitores pedem mais

O Timor Post foi também o primeiro jornal a ter conteúdos diários próprios em língua portuguesa. Começou com notícias internacionais de outros órgãos de comunicação social, mas, em 2014, arriscou-se a publicar, sem qualquer apoio, uma média de duas notícias diárias traduzidas, nem sempre com aceitação do público. Foi em 2017 que a página de português ganhou outro fôlego, com a frequência de muitos jornalistas da formação de Português para Jornalistas do “Consultório da Língua para Jornalistas” (CLJ), um projeto que resulta da parceria entre o Camões I.P e a Secretaria de Estado para a Comunicação Social. “Em 2020, temos já uma jornalista e tradutora para o português. Quando os jornalistas escrevem em tétum, a tradutora traduz para esta língua e temos também a jornalista que escreve as notícias de raiz”, conta a diretora.

José Monteiro, formador português do CLJ, fala do empenho dos formandos do Timor Post em aprender português. “Foi a partir do esforço destes jornalistas que a página de Português do jornal começou a alargar. Quando terminaram a formação do nível B1, alguns destes formandos começaram a escrever voluntariamente para alimentar a página. O projeto não esperava que tal acontecesse tão cedo”, conta.  E acrescenta: “O Timor Post foi pioneiro no uso do português e sabemos que influenciou também outros órgãos de comunicação social a publicar nesta língua”. Questionado sobre a informação, José Monteiro elogia o esforço dos jornalistas deste diário em procurar dar resposta aos principais problemas da sociedade timorense.

A diretora do jornal Timor Post conta, por sua vez, que recebe alguns comentários positivos sobre as notícias e reportagens em língua portuguesa. “Há alguns leitores que fazem uma apreciação positiva do nosso jornal, sobretudo da página de português. Às vezes, telefonam-me ou ouço de outras pessoas [estes comentários]”, conta a diretora com orgulho.

Jesuína Daniel é uma das leitoras que elogia o jornal e a página de português, mas pede mais. “O Timor Post tem algumas informações que outros jornais não têm, como a página de português. Eu gosto de o ler, porque é independente. Não é a voz do Governo. Devia, contudo, aumentar o português para mais de duas páginas para que possa ajudar as crianças a ler e, ao mesmo tempo, a aprender esta língua”, sugere.