HAK pede que se exija a Japão reconhecimento dos direitos de escravas sexuais timorenses

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DÍLI- A Associação da Lei, Direitos Humanos e Justiça (HAK, em indonésio) considera que o Governo timorense deve exigir às autoridades japonesas um reconhecimento das mulheres timorenses vítimas de escravidão sexual, durante a ocupação nipónica de Timor-Leste, na Segunda Guerra Mundial.

As declarações foram feitas pelo Diretor da HAK, Manuel Monteiro Fernandes, no âmbito da entrega, no passado sábado (22/02), do livro “Luta pela verdade e justiça” (“Luta ba Lia Loos no Justisa”) ao Instituto de Ciências Religiosas (ICR) para assinalar o dia da invasão militar japonesa de Timor-Leste, a 20 de fevereiro, data subordinada ao tema da “Escravidão Sexual”.

“O Estado timorense deverá ter a seriedade de exigir ao Executivo japonês, pois não é suficiente apenas uma cooperação bilateral e o apoio com fundos, através da JICA, para desenvolver o setor agrícola e as infraestruturas. Trata-se do sofrimento das vítimas da Segunda Guerra Mundial”, sublinhou.

O diretor insistiu na necessidade de se assinar anualmente o dia da invasão japonesa para que o Estado timorense recorde este período e exija ao Governo nipónico o reconhecimento dos direitos das vítimas da ocupação.

Manuel Monteiro recordou ainda que 20 vítimas da invasão japonesa deram o seu testemunho para um estudo que esta associação realizou, tendo, contudo, 11 já falecido.

“A esmagadora maioria das vítimas exige os seus direitos de reconhecimento e justiça”, disse.

Para o responsável, este período da história é também uma lição para acabar com o ciclo de impunidade em Timor-Leste, em particular com os casos de violência e de abuso sexual.

Manuel Monteiro Fernandes acrescentou ainda ser necessário dar a conhecer a história às novas gerações, sobretudo aos estudantes.

“A esmagadora maioria de nós ainda desconhece a história da Segunda Guerra Mundial. Conhecemos apenas a história do colonialismo português e da invasão indonésia”, disse o diretor.

Segundo o responsável, é importante salvaguardar e conhecer a história timorense, algo que pode ser feito através dos livros e assinalando anualmente esta data.

“Comemoraremos sempre, no dia 20 de fevereiro, juntamente com os jovens, para que possam aprender a nossa história”, disse, acrescentando que a HAK está empenhada em levar este período da Segunda Guerra Mundial para o currículo nacional.

O Vice-Reitor I dos Assuntos Académicos do ICR, Ferdinand Resuena, mostrou-se, por sua vez, satisfeito com a entrega do livro por parte da HAK por permitir que os universitários adquiram alguns conhecimentos sobre a Segunda Guerra Mundial.

“O livro que a associação HAK entregou ao ICR é muito importante para os nossos estudantes aprenderem e conhecerem a história da Segunda Guerra Mundial e os reflexos para Timor-Leste, sobretudo das vítimas de escravidão sexual”, referiu.

Para o Vice-Reitor, se os jovens universitários conhecerem este período negro da história e da violação sexual a que foram sujeitas muitas timorenses, poderão valorizar mais o papel da mulher e dar-lhe a dignidade que merece.

Já Aliança Soares de Deus, uma das representantes das famílias das vítimas, recordou o sofrimento da sua avó, transformada em escrava sexual.

“A minha avó Inês era do município de Ermera, posto administrativo de Atsabe. Ainda sinto o seu sofrimento”, sublinhou.

Aliança mostrou também satisfação com o esforço da HAK para produzir este livro, que também envolve a sua família, por considerar que permite aos jovens timorenses conhecer parte da história dos seus antepassados.

A representante pediu ainda aos universitários do ICR e de outras universidades que apoiassem a HAK e o Estado timorense para que as vítimas possam exigir os seus direitos junto das autoridades japonesas.

A história que muitos desconhecem

Na noite de 19 para 20 de fevereiro de 1942, depois da entrada em território timorense de forças australianas, uma frota nipónica chegou a Díli, desembarcou uma força de cerca de 1.500 soldados e ocupou a cidade, violando a neutralidade de Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.

A invasão japonesa causou graves violações dos direitos humanos, nomeadamente exploração sexual, e dezenas de milhares de mortos. Ficou famosa a ação de D. Aleixo Corte Real, que se opôs aos militares japoneses e, em 1943, foi fuzilado.

A 5 de setembro de 1945, depois do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki e da rendição do Japão, o comandante japonês entregaria as armas ao governador português de Díli.

Segundo documentos históricos analisados pela agência de notícias japonesa Kyodo News, o exército nipónico pediu, durante a Segunda Guerra Mundial, ao Governo uma escrava sexual para cada 70 militares. Muitas destas mulheres eram da Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Filipinas e Japão.

Apesar de o Governo japonês considerar que as reparações de guerra estão resolvidas e de ter criado fundos para as vítimas, ainda se exigem às autoridades do país mais pedidos de desculpa e correm processos nos tribunais da Coreia do Sul.

Estima-se que, em Timor-Leste, mais de 200 mulheres tivessem sido feitas escravas sexuais pelo exército japonês e alvo de incompreensão por parte da sociedade timorense, que considerava que tinham sido beneficiadas durante a invasão. Não se conhece do Governo timorense qualquer pedido de reconhecimento das vítimas timorenses. (isa)

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