Fortaleza para administrador do Posto de Cassa, Uma herança deixada ao povo rebelde pelo Governo Colonial em Ainaro

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Quarto na Fortaleza para detenção de pessoas que cometem crimes. Foto Carlos Malilaka

Pelo: Carlos Malilaka de Jesus

A cerca de 20 quilómetros a sul da vila de Ainaro, no topo de uma montanha, que no tempo colonial português era chamado de Monte Cassa, havia uma pequena fortaleza que neste momento está a ruir.

Foi construída durante o período da colonização, entre 1917 e 1918. A construção iniciou-se com um pedido do régulo do suco de Cassa, Kau-Lelo Bukar Mali-Nahe, ao administrador do Concelho de Ainaro de dividir o posto administrativo de Ainaro, como um sinal da sua lealdade, depois da derrota na Guerra de Manufahi, em 1912, contra o Governo colonial português.

Francisco Lopes Bukar Mali-Nahe, de 63 anos de idade, era neto de Kau-Lelo Bukar Mali-Nahe. Conta que a Fortaleza do Posto de Cassa foi construída em 1917, no tempo em que o seu avô era régulo ou chefe de suco e o seu povo de Cassa eram aliados guerreiros do régulo de Manufahi, Mau-Loi, conhecido como Dom Boaventura Souto Maior na revolta de Manufahi de 1908 a 1912.

O muro da Fortaleza na parte sul.Vista de fora. Foto Carlos Malilaka

Francisco Bucar Mali-Nahe defende que a Guerra de Manufahi foi uma revolta do Reino de Camanassa (atual suco de Camanassa no Suai), que, antes da chegada dos portugueses, era tradicionalmente governado por três Loro (subreino ou província) – Loro Suai (atual suco de Suai Loro), Loro Raimea (atual suco de Raimea, no Posto Administrativo de Zumalai, município de Covalima e Loro Tiris (atual suco de Betano, no Posto Administrativo de Same, município de Manufahi) – no centro do território de Timor-Leste.

O Estado soberano, antes da chegada dos “malae mutin” (estrangeiros brancos), o reino de Camanassa possuía forças guerreiras em todos os subreinos. Cada Loro tinha a sua própria força guerreira: a do Loro Suai, que tinha nas suas fileiras as forças do Zobá e Maucatar; o Loro Raimea com as forças de Cassa e Lau-Ussu; o Loro Tiris Betanu, com as forças guerreiras de Manuai (Manufahi) e ainda a de Leolaco, suco de Dom Boaventura que viria a perder com o Governo colonial após a guerra de Manufahi.

Parte das forças aliadas timorenses revoltaram-se contra o Governo colonial e o povo de Cassa, depois de derrotado na guerra, regressou ao seu suco, cedendo, deste modo, ao dominante Reino de Suro de Ainaro, durante o regime do régulo, Dom Aleixo Corte Real. No entanto, rebelde, o povo de Cassa não desejava ser governado pelo povo de Suro Ainaro.

Em 1914, o governo colonial avançou com a formação de concelhos administrativos, sucos e povoações em todo o território. Assim, o suco de Cassa viria a ser dividido em dois: suco de Cassa, na parte sul, e o suco de Maununo a norte.

Ao criarem o concelho de Suro/Ainaro, os Régulos de Suro, Dom Nai-Cau e Dom Aleixo Corte-Real (Nai-Seço) não tardaram a enviar o seu pessoal oriundo do Suco de Suro-Craic para então exercerem os cargos de chefes dos sucos de Cassa e de Maununo.

Entretanto, o povo de Cassa não queria receber o suro, chamado Luís de Suro Craic, nomeado pelo Administrador do Concelho de Ainaro, em 1914, para ser então chefe do suco, uma política para dominar Cassa, com fama de rebelde em relação ao governo colonial português em Manufahi e, que liderado por Kau-Lelo, nunca se quis submeter ao poder do reino de Suro.

Segundo Francisco Bucar Mali-Nahe, o arranque da construção da Fortaleza de Cassa coincidiu com um crime que supostamente o chefe do suco de Cassa, Luís de Suro Craic, terá cometido contra a mulher de Kau-Lelo.

Este caso levou a que o Administrador do Concelho tomasse a decisão de obrigar o chefe do suco de Cassa a pagar uma série de multas a Kau-Lelo. No entanto, este acabaria por rejeitar a proposta e, em troca, pediu ao administrador que exonerasse Luís do seu cargo de chefe do suco de Cassa. Além disso, Kau-Lelo exigiu-lhe que fosse criado um novo posto em Cassa por não aceitar estar sob a alçada de Ainaro.

O antigo forno de pão dentro da fortaleza. Foto Carlos Malilaka

O Administrador do Concelho viria a aceitar o pedido de Kau-Lelo e ordenou a exoneração de Luís de Suro Craic como chefe do suco de Cassa. Assim sendo, o cargo de chefe do suco foi entregue ao dono de Cassa, Kau-Lelo, sendo aprovada a criação de um posto sob a sua tutela os sucos de Cassa e de Maununo, mas sob a condição de edificar uma Kota (Fortaleza) destinada ao administrador do posto.

Kau-Lelo mostrou-se disponível e ofereceu o local onde residia, localizado no Monte de Cassa, para aí ser construída a sede do administrador do posto. Assim, o régulo transferiu a sua “uma-lulik” Bukar-Malinahe para uma zona mais abaixo, numa distância de aproximadamente de 150 metros.

No cima do Monte Cassa, os antepassados do povo de Cassa construíram tranqueiras (sebes feitas de pedras), estruturas que serviam de defesa contra o inimigo.

Levou muito tempo a ser edificada a fortaleza devido ao facto de o material usado para a construção, areia e água, estarem muito distantes da obra, o que fazia com que os trabalhadores perdessem horas e horas a transportá-los até ao local. A areia era extraída da ribeira de Sarai, que ficava na parte leste, a sensivelmente dois quilómetros, obrigando o povo a subiro monte, transportando consigo todo o material de construção.

Dada a importância da construção do posto, o povo de dois sucos (Cassa e Maununo), homens e mulheres, foram obrigados a trabalhar, ao ponto de transportar todo o material de construção, areia, pedras, rochas e calcários, rumo à montanha.

O esforço de Kau-Lelo de levar por diante a construção do posto serviu para mostrar e convencer o ‘malae’ português de que o povo de Cassa era leal para com o Governo colonial. Por outro lado, mostrou não desejar viver sob a alçada do Reino Suro/Ainaro nem isolado. No fundo, queria recuperar do trauma que tinha sido a derrota na revolta de Manufahi.

Paisagem da Fortaleza de Cassa. Vista para Ainaro. Foto Carlos Malilaka

No exterior da Fortaleza de Cassa, na parte sul, existeum amplo e vasto espaço aberto com um jardim, onde se pode relaxar, e que oferece uma vista deslumbrante. Aí, podemos avistar o Mar de Timor da costa sul, os montes Ramelau e Cablaqui a norte e leste e ainda as montanhas de Taroman em Covalima, localizadas a oeste.

O muro da fortaleza na parte oeste. Um olhar de fora. Foto Carlos Malilaka

A Fortaleza Monte Cassa viria, no entanto, a ser abandonada devido à falta de água e de acessos. Existe uma nascente nas proximidades da fortaleza a uma distância de aproximadamente 150 metros, mas, na época da seca, encontrava-se sempre seca. Na altura, o administrador do posto, aí residente, lembrando as suas necessidades diárias, obrigou os habitantes do suco a trabalharem obrigatoriamente para si e para o chefe do suco.

Fonte de Água seca localizada a 150 metros da Fortaleza. Foto CarlosMalilaka

“Malae Pires” foi designado primeiro administrador do Posto de Cassa. Foi casado com uma mulher natural do suco Cassa e tiveram vários filhos de uma geração com misturas étnicas entre portugueses e os indígenas, de que é exemplo Alfredo Pires, ex-ministro do Petróleo, e Emília Pires, ex-ministra das Finanças.

Mais tarde, na década de 1930, o posto viria a ser completamente abandonado até à Segunda Guerra Mundial. Mesmo após o regresso do Governo português até à restauração da independência, o posto administrativo de Cassa nunca chegou a ser restabelecido, em virtude da falta de água e de estradas, o que impediu que as populações do suco de Cassa regressassem às suas aldeias ou povoações antigas do Monte Cassa, localizadas próximas da fortaleza.(*)

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