Dia Mundial da Língua Portuguesa – Como aprendi português?

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Reportagem Isaura Lemos de Deus

Hoje, 05 de maio, comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. O português é, a par do tétum, língua oficial em Timor-Leste. Embora não seja a língua materna para a esmagadora maioria dos timorenses, segundo os Censos de 2015, já mais de 30% da população tem domínio do português. Entre os timorenses que aprendem a língua, são muitos os que dizem que é “difícil” ou que “tem muitos verbos”.

O Timor Post dá-lhe a conhecer exemplos de duas jovens que aprenderam português e que agora o usam diariamente no seu trabalho. Duas histórias que lhe mostram que é possível começar a aprender do zero e, com dedicação, dominar a língua portuguesa.

Aquilina Moniz, de 28 anos, trabalha na Rádio e Televisão de Timor-Leste (RTTL) como editora e tradutora de informação em português. Quando o telespectador ouve o português correto do Telejornal Português, não imagina o percurso da sua editora na aprendizagem da língua. Aquilina também nunca imaginou que um dia trabalharia com a língua portuguesa.

Aquilina Moniz é editora da secção de Português da RTTL e a responsável pela correção linguística do Telejornal Português

O primeiro contacto com o português começou no 1.º ciclo do ensino básico, mas a verdadeira aprendizagem só teria início na universidade. “Comecei a aprender, na licenciatura de Língua Portuguesa na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), mas isso não foi suficiente. Não estava bem preparada, pois, quando cheguei à universidade, o meu nível era muito baixo. Sinceramente, melhorei depois com os cursos de formação para jornalistas”, conta.

Aquilina diz que não queria fazer a licenciatura em português, mas o departamento escolhido já não podia receber mais alunos. “Fiquei tão assustada e pedi a transferência. A universidade disse-me, contudo, que não podia fazer logo a transferência. Tinha de esperar até ao terceiro trimestre”, conta.

A jovem recorda também que, mesmo seis meses depois, ainda queria mudar de curso. “Quando cheguei ao terceiro trimestre, decidi não mudar. Só comecei a dedicar-me ao estudo, depois da minha decisão. Claro que senti dificuldades por falta de bases sólidas e de conhecimentos em geral”, refere.

Mas o gosto pelo português acabaria por chegar e, embora por humildade não o reconheça, tem um excelente domínio da língua. Apesar disso, considera o português difícil e a falta de contacto fora do local de trabalho torna ainda mais complexo o domínio da língua. “Tenho dificuldades em aprender o português, porque não tenho com quem contactar. Na minha família, ninguém fala esta língua, nem nas ruas nem em outros locais públicos. Não tenho de falar português, pois todos falam o tétum. Tudo isto não me permite melhorar o meu nível”, conta preocupada.

Mas Aquilina tem outras armas para melhorar o português. Assiste, sempre que pode, a telenovelas portuguesas e tenta comunicar neste idioma com os colegas, “ainda que com erros”.

A jovem tradutora gostava que a maioria dos timorenses usasse mais o português.  “Espero que, no futuro, toda a população timorense possa usar o português na comunicação diária”, afirma.

Aquilina reconhece também que a presença do português na sua vida é importante. “A língua portuguesa trouxe-me vantagens. Consegui emprego por saber português”, conta.

Yane Maia, 24 anos, começou a aprender português há menos de dois anos. É atualmente revisora de informação em português na SECOMS

Yane Elfrida Domingas Maia, de 25 anos, é revisora de informação em português na Secretaria de Estado para a Comunicação Social. Tal como Aquilina, nunca se imaginou a trabalhar com a língua portuguesa.

Começou também a aprender no 1.º ciclo, mas com dificuldades. “Cheguei ao ensino de secundário, mas o meu português nunca se desenvolveu. Depois de frequentar um curso de língua portuguesa no Consultório da Língua para Jornalistas [CLJ], é que consegui melhorar o meu português. Frequentei a primeira formação em meados de 2018”, conta com pequenas gargalhadas.

E fez todo o percurso de formação facultado pelo CLJ, um projeto que resulta da parceria entre o Camões I.P. e a Secretaria de Estado para a Comunicação Social (SECOMS) e que visa melhorar as competências em português dos jornalistas. Nunca mais parou de aprender a língua até ser selecionada pela SECOMS para rever linguisticamente os textos em português produzidos por jornalistas timorenses de diversos órgãos de comunicação social. É uma das responsáveis pela informação em português correto a que o leitor tem acesso diariamente.

Para Yane, a língua não é uma dificuldade. É sim um desafio, que encara com muito otimismo. “Aprender novas coisas é um desafio e é isso que me motiva a aprender, sobretudo a língua portuguesa. É preciso ler e ler para compreender e dominar uma língua não materna”, defende.

Yane é uma leitora ávida em português. Além da informação, já leu vários romances nesta língua, de autores portugueses e estrangeiros. Mostra-se, por isso, preocupada com a falta de hábitos de leitura dos jovens timorenses. A falta de livros ou de gosto pela leitura prejudica a aprendizagem da língua, sustenta.

Para a jovem, a leitura é “uma arma” para formar frases completas, estruturadas e com léxico variado. “Temos de ler muito, pois o português tem muito vocabulário e formas variadas de transmitir uma ideia”, diz.

Questionada sobre outras estratégias para ter chegado a este nível de domínio da língua, a jovem responde que é necessária concentração, revisão do que aprendeu nos cursos de formação, mas também ver filmes, ouvir música e praticar a escrita em português. “Devemos praticar e comunicar em português com os nossos colegas para que não esqueçamos esta língua”, afirma também.

Yane gosta muito de aprender várias línguas, sobretudo o português. “Sabendo muitas línguas, podemos abrir as nossas asas e voar”, diz.

Tal como Aquilina, a jovem gostava que a língua se difundisse pelo país. “Espero que os timorenses possam escrever, ler e ouvir a língua portuguesa. Não podem ter medo e vergonha de aprender e falar esta língua, pois ela é a nossa identidade”, afirma.

A jovem pede, por isso, ao Governo timorense mais investimento na língua portuguesa, sobretudo nas escolas, pois considera o português “uma moeda”, que alimenta o tétum. “Sem o português o tétum não se desenvolve”, sublinha.

Yane acredita que já conseguiu melhorar a sua vida graças ao português. A ele lhe deve o emprego. “O português ajuda muito e muito a minha vida, por isso quero agradecer aos meus professores que nos ensinam esta língua”, diz com um sorriso.

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