Dia Internacional da Mulher – Três mulheres, três gerações, três exemplos inspiradores

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

No Dia Internacional da Mulher, o Timor Post quer homenagear todas as timorenses e apresenta três mulheres comuns que provam que elas também são capazes (“Feto mós bele”).

O Dia Internacional da Mulher comemora-se em todo o mundo a 08 de março. O papel da mulher foi, durante muitos séculos, sobretudo o de mãe, esposa ou doméstica. O homem ficou com a responsabilidade de ter um trabalho remunerado fora de casa. A partir da segunda metade do século XIX, muitas mulheres começaram a trabalhar, mas recebiam um salário inferior ao dos homens. Iniciaram-se, por isso, várias formas de luta na Europa e nos Estados Unidos da América (EUA). As mulheres exigiam melhores condições de vida e trabalho, mas também o direito ao voto. O Dia Internacional da Mulher começou a ser celebrado a partir de 1909, nos EUA, tendo-se seguido manifestações e marchas na Europa. Na Rússia, em 1917, ocorreram também diversas manifestações que foram reprimidas pela polícia, sendo a mais conhecida a de 08 de março. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a data como o Dia Internacional da Mulher com o objetivo de recordar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.

O caminho da igualdade de género em Timor-Leste ainda é muito longo. O país surgia, em 2014, com uma discriminação muito elevada no Índice de Instituições Sociais e Género (SIGI, em inglês). O relatório regional do Sudeste Asiático de 2016 assinalava como positivas as quotas e voz política das mulheres, que representavam 39% dos assentos parlamentares. Dava, contudo, conta, que apesar de a idade para casar estar regulada, códigos familiares discriminatórios em relação às mulheres provocam casamentos precoces e violência contra as raparigas, o que impede também o seu acesso a educação. No que toca à violência doméstica, 86% das mulheres timorenses aceitam em algumas situações a agressão do marido. As práticas patriarcais levam também a que o acesso à terra pela mulher seja limitado.

No Dia Internacional da Mulher, o Timor Post dá-lhe a conhecer três mulheres timorenses de gerações diferentes que conquistaram o seu lugar numa sociedade dominada por homens. São mulheres que se destacaram pela sua coragem e luta. Mulheres que conseguem conciliar os papéis de mãe e esposa com o trabalho e gestão de uma empresa. Mulheres a quem a desigualdade de género não roubou os sonhos. Três mulheres que provam que as timorenses também são capazes.

A mulher lutadora

Brígida Amaral nasceu em Ainaro e é mãe de três filhas. Tem 61 anos e é viúva desde 1992. As tropas indonésias mataram-lhe o marido. “O meu marido morreu com a arma em punho”, conta.  Brígida teve de ser mãe e pai ao mesmo tempo. Esteve no mato durante 14 anos, onde deu à luz quatro filhos e onde um viria a falecer. “Dei à luz sem médico, enfermeiro, sem roupa nem comida. Comia apenas folhas de árvores”, diz. A guerra ficou-lhe gravada nas cicatrizes da barriga e a cara e a voz não escondem o sofrimento, mas Brígida é muito mais que dor. É um exemplo de luta, de luta pela libertação de um país, mas também de luta pela sua família.

No mato, trabalhava como segurança, preparava comida para as FALINTIL e pertencia à Organização Popular da Mulher de Timor (OPMT). Foi capturada em 1989 e torturada pelos militares indonésios. Durante algum tempo, teve de responder a inquéritos todas as noites e as pressões dos indonésios mantiveram-se por mais alguns anos, porque o marido ainda estava no mato.

Teve de viver em casa do irmão com as três filhas e a mãe, também viúva. O pai tinha também sido morto durante a guerra. Sem casa, sem trabalho, sem dinheiro teve de se agarrar à agricultura. Cultivava mandioca, batatas e feijão, que depois procurava vender para sustentar a família. “Naquela altura tinha uma vida muito difícil, pois não tinha marido, não tinha trabalho nem dinheiro. Tinha apenas uma horta. Tive de me esforçar muito para conseguir dinheiro, vendendo milho, mandioca e batatas para sustentar a minha família e enviar as minhas filhas para escola”, conta.

A educação das filhas foi sempre a sua prioridade. “Éramos analfabetos. Não queria que as minhas filhas fossem como nós. Por isso, esforcei-me muito para que pudessem ir à escola”, diz a veterana. As jovens acabariam o ensino secundário e, com a ajuda da pensão que começou a receber após a independência, foram para a universidade. São todas licenciadas. Foi também a pensão que lhe permitiu construir a sua própria casa.

A mulher jornalista, gestora e mãe

Santina de Araújo nasceu em Ainaro e tem 45 anos. É jornalista, diretora-executiva do Timor Post e mãe de quatro filhos.

A boa disposição, os sorrisos e as pequenas gargalhadas envergonhadas fazem parecer que é fácil ser-se tudo isto num dia, mas, como confessa, é complicado.

“Gerir uma empresa e, ao mesmo tempo, ser mãe não é fácil, mas a experiência ajuda a ultrapassar os desafios. Antes de casar, já era jornalista, por isso o meu marido compreende o meu trabalho. Sempre nos apoiamos um ao outro”, diz. “Foi mais difícil, quando assumi a função de jornalista e de chefe da redação durante quatro anos. Voltava para casa, às vezes, à meia noite ou uma da manhã. Não pude passar tempo com os meus filhos e marido. Quando acordava, já tinham ido para a escola e para o trabalho. Mas agora, como diretora, tenho mais tempo para a minha família e para tratar deles. Almoçamos e jantamos juntos e passamos o fim de semana juntos”, acrescenta com um sorriso.

Atualmente, já muitas mulheres timorenses são jornalistas, mas, quando começou, durante a ocupação indonésia, contavam-se pelos dedos das mãos as que tinham coragem de seguir esta profissão. Foi com um militar indonésio que surgiu o interesse para trabalhar no jornalismo: “Antes não sonhava ser jornalista, mas um militar indonésio inspirou-me. Envolvi-me no Massacre de Santa Cruz, em 1991, e quase fomos baleados por um indonésio. Contudo, um outro militar indonésio disse ‘Não dispare sobre estas crianças, porque elas não sabem o que estão a fazer’. Então, quis saber mais sobre esse militar e [essa curiosidade] despertou-me a vontade de ser jornalista”.

“Era muito arriscado trabalharmos como jornalistas, sobretudo na cobertura de organizações clandestinas. As tropas indonésias investigavam os jornalistas em notícias ligadas aos guerrilheiros”, conta, recordando também os perigos que correram durante a cobertura do referendo.

Santina considera que o jornalismo é uma vocação e mostra-se orgulhosa, como mulher, do acesso à informação e de poder contactar com governantes e dirigentes: “O jornalista não tem dinheiro, mas é rico em informação”. A gestora destaca ainda as dificuldades que teve em estudar. Trabalhou para prosseguir os seus estudos, ao contrário do que acontece com os seus filhos. É bem visível o entusiamo e carinho com que fala dos sonhos dos seus filhos: “Sou jornalista, mas espero ter um médico, uma defensora, um padre e uma diplomata”.

Santina recorda também a luta de muitas mulheres timorenses pela libertação do país e dos esforços que ainda têm de fazer para alcançar os objetivos. “Espero que um dia tenhamos uma mulher presidente”, sublinha.

A mulher de todos os sonhos

Yane Maia de 25 anos, nascida no Suai, não conhece a realidade da ocupação indonésia. É uma jovem muito com muitos ofícios e sonhos. Tem tempo para ser estudante universitária, trabalhadora e voluntária em diversas organizações ligadas à defesa dos jovens e das mulheres.

A jovem considera que a influência dos seus pais foi determinante. “O meu pai pedia-me para ler, ler, ler. A minha mãe sempre me incentivou a declamar poesia, a cantar e a dançar em frente das outras pessoas”, conta. Para Yane, esta atitude da mãe transformou-a na pessoa que é hoje: autoconfiante, dinâmica e cheia de energia. Na escola, a partir do 6.º ano, sempre se destacou como uma das melhores alunas da turma. Com as muitas tarefas que tinha de fazer em casa, nem sempre era fácil estudar. O tempo foi sempre precioso para a jovem. “Quando cozinhava, por exemplo, aproveitava para estudar”, conta.

Apesar de ter apenas 25 anos, o currículo de Yane é extenso na defesa dos direitos dos jovens e mulheres. Desde cedo começou a participar em variadas atividades cívicas. Aos 14 anos, foi selecionada como educadora de pares na questão do VIH-SIDA, realizando ações de sensibilização junto de outros jovens. Aos 16, tornou-se representante dos jovens de Tilomar no Parlamento Jovem. Com 17 anos, estava em Banguecoque, na Tailândia, a representar as jovens timorenses numa conferência sobre a política nacional dos jovens asiáticos. “Na conferência, eu era a mais jovem e não tinha nenhum cargo, ao contrário de todos os outros representantes, mas isso não me assustou”, diz Yane. Aos 19 anos, foi a Nova Iorque para participar numa conferência internacional sobre contribuição das mulheres para um mundo melhor. “Esta conferência motivou-me a lutar pelos direitos das mulheres. A partir daí, fiquei muito ativa na questão da igualdade de género”, conta. Em 2015, envolveu-se no programa da Fundação Alola “Young women making change”, como ativista na defesa dos direitos das jovens, especialmente das vítimas de discriminação.

Yane é finalista do Departamento de Relações Internacionais na Universidade Oriental Timor Lorosa’e (UNITAL), mas não consegue ser apenas estudante. Desde 2015, que trabalha voluntariamente como uma das gestoras da Alumni Parlamentu Foin Sae Timor-Leste, uma organização ligada à formação cívica de jovens. Entretanto, em 2016, trabalhou também na ONG Counterpart International, como coordenadora de um programa de promoção da participação dos jovens nas eleições dos líderes comunitários. Em 2016, começou a trabalhar como jornalista na Tafara.tl “para aprender a escrever e a obrigar-se a dominar questões diferentes”. Foi através deste órgão que chegou aos cursos de Português para Jornalistas do projeto Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ), uma parceria entre o Camões I.P. e a Secretaria de Estado para a Comunicação Social. Na sequência do seu desempenho muito positivo, foi convidada para integrar a equipa do CLJ e trabalhar na revisão linguística de informação em língua portuguesa dos órgãos de comunicação social timorenses. Agora, já tem um sonho: “Gostava de um dia fazer um mestrado de língua portuguesa”, diz.

Com o seu trabalho, ajuda os pais a pagar os seus estudos, apoia a irmã num curso e a família na construção de uma casa. “Apesar de ainda estar a estudar na universidade, apoio a construção da nossa casa no Suai, em Tilomar”, conta com orgulho. Há períodos em que trabalha e estuda de manhã, à tarde e à noite. “Não é fácil gerir o tempo e fazer muitas coisas num só dia, mas não me preocupo com as dificuldades. O que me preocupa é poder fazer todas as minhas atividades. Por isso, determino prioridades. O importante é o compromisso connosco próprias e preparar toda a nossa energia para gastar nestas atividades. Às vezes, falho em algumas, mas isto não me para. Aprendo sempre com as minhas experiências”, diz.

Questionada sobre as dificuldades de ser uma mulher ativa numa sociedade patriarcal, Yane diz que não é fácil e que já teve alguns problemas. “Mas não desisto. O que eu sinto que é bom para mim, que tem benefícios, eu faço, sublinha”. Sobre os sonhos para o futuro, afirma com uma gargalhada sincera: “Quero ser uma boa gestora da organização, uma boa jornalista, uma boa diplomata. Gostava também de ser deputada”. E diz com determinação: “Como mulheres devemos ter os nossos próprios sonhos e lutar para os atingir. Devemos, por isso, ter autoconfiança e compromissos connosco. Nunca podemos parar de estudar, aprender, aproveitar todas as oportunidades. O mais importante é não nos calarmos com algo que não gostamos”.

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