Cheias em Díli – Destruição e sentimento de abandono

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Reportagem de Isaura Lemos de Deus

Ainda antes das 16 horas de sexta-feira, o céu começa a ficar carregado com nuvens negras. Não há dúvida que é mais uma tarde de chuva intensa em Díli, mas ninguém imagina o que aí vem. A forte corrente das ribeiras de Bidau ou Maloa, arrastando troncos de árvores e pedregulhos, rapidamente entope os canais. Num instante, a água começa a galgar as margens, deixando um rasto de destruição no centro e leste de Díli. Nesse mesmo dia, um morto, escolas e casas destruídas, centenas de desalojados e trânsito caótico.

Sábado de manhã começa a árdua tarefa da limpeza. É preciso retirar a camada de lama que invadiu as casas e o espaço à volta, mas um dia não chega para as limpezas e já começam a faltar as forças aos habitantes, que se queixam de abandono por parte das autoridades. Nas zonas mais afetadas da cidade ainda são visíveis o lodaçal, o entulho, os charcos de água parada e as nuvens de poeira, focos de doença.

Em Taibessi e Becússi são muitas as casas destruídas. Foi também em Becússi que morreu um adolescente. Encontramos algumas famílias a tentarem limpar o lodaçal e o que restou do dilúvio. Procuram documentos e roupa, mas, em muitos casos, só ficou o que estava pendurado na parede: os retratos. É o caso de Maria.

Maria Martins das Dores, de 40 anos, viúva e com cinco filhos, residente em Becússi, conta-nos como tudo aconteceu.  “De repente, falhou a luz. Saí para ver o que se passava. Tinha começado a chover e ouvi algumas crianças a gritar ‘Mota boot! (Ribeira cheia). Fui acordar a minha filha e algumas vizinhas avisaram-me que tinha de sair. Fui procurar alguns documentos, mas não consegui, porque a água já tinha invadido a casa. Eu e a minha filha mais nova não conseguíamos sair. Ficámos encurraladas na cozinha”. A água já lhes dava pelo pescoço, quando o primo, também ferido pelo muro que tinha caído, as conseguiu resgatar. Os restantes filhos conseguiram subir para um muro e salvar-se.

Maria e a família sobreviveram, mas registou-se uma vítima mortal em Becússi. Leonito da Cunha ainda tentou salvar o adolescente: “Encontrei um jovem levado pela corrente da água para este local, mas o estado de saúde já era crítico. Tentei transportá-lo de mota para uma clínica em Becora, mas, quando chegámos, já tinha morrido”, conta.

Voltamos a Maria e os filhos que sobreviveram, mas estão preocupados com o futuro. A principal preocupação é a educação das crianças. A roupa, fardas da escola, calçado, cadernos, livros e outros materiais escolares foram levados pela ribeira. “Não conseguimos salvar nada, sobretudo os documentos e as fardas dos meus filhos. Saímos apenas com a roupa que tínhamos no corpo. A sorte é que algumas vizinhas nos deram algumas peças”, diz.

À semelhança de outras zonas de Díli, em Becússi, há um sentimento de abandono entre a população. Maria acusa as autoridades locais, em particular o chefe de suco, de despreocupação, dizendo que não estiveram sequer presentes no local. “O chefe do suco não nos veio ver até agora [sábado]. A nossa chefe de aldeia é que fez o levantamento de alguns dados”, queixa-se. Nem o chefe de suco nem representantes governamentais. Aponta, por isso, o dedo ao Ministério da Solidariedade Social e Inclusão (MSSI). “Ainda não recebemos qualquer ajuda”, afirma.

Sem a família, Maria estaria desamparada e insiste na necessidade de apoio para os filhos. “Não temos espaço, não conseguimos dormir. A sorte foi que o meu irmão nos trouxe para sua casa para descansarmos. Era também importante a ajuda dos ministérios para os meus filhos poderem continuar os seus estudos. Se pararem, é uma tristeza para mim”, diz.

Também Marcelina, outra vítima das cheias, questiona as autoridades deste suco por não aparecerem no local da tragédia. “Os nossos corações doem muito com as declarações do chefe do suco, que perguntou ‘Vou ser eu que vos pago?’. Não precisávamos de dinheiro, mas pelo menos que visse as condições da população. Isso já nos deixava contentes. Os líderes só precisam dos votos do povo, mas não se preocupam com as nossas condições”, lamenta, chorando.

O Diretor-Geral da Proteção Civil, Superintendente Assistente Ismael Babo, afirmou que as inundações tinham afetado até sábado cerca de 200 famílias. “Desde ontem [sexta-feira] até agora [sábado], ainda não temos dados claros, mas já se registaram por volta de 200 famílias afetadas. Já efetuámos uma reunião de urgência para criar equipas que registem as vítimas, mortes e as casas estragadas”, diz.

O diretor confirmou também a morte de uma pessoa em Becússi: “Neste momento, regista-se uma morte em Becússi, mas suspeita-se que ainda poderá haver mais uma vítima e, por isso, a equipa de bombeiros está a procurar”.

Alguns desalojados foram transportados pela Secretaria de Estado da Proteção Civil para os seus escritórios em Caicoli, a Igreja Bidau e o Centro de Operação de Desastres Naturais, em Bemori. Ismael Babo pediu ainda a toda a população, sobretudo de Díli, que informasse a Secretaria de Estado da Proteção Civil sobre o desaparecimento de familiares para que a polícia possa atuar com urgência.

Recorde-se que o Governo previa no Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED) 2011-2030, uma drenagem melhorada em todos os municípios até 2020. Tal ainda não aconteceu. Não se conhece também qualquer plano diretor para a cidade de Díli, a crescer de forma caótica, nem nenhuma lei de ordenamento do território. Para muitos habitantes de Díli, se algum dia chegarem, já será demasiado tarde.