Aspetos a melhorar no setor da Educação

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Caetano da Costa Bobo
Caetano da Costa Bobo

Escritor Caetano da Costa Bobo (Formador de Língua Portuguesa, Tradutor e Revisor Linguístico, Endereço Eletrónico: [email protected] Telemóvel: +670 7736 6240)  

Apesar dos progressos dos últimos anos, a educação em Timor-Leste tem bastantes insuficiências que, se não forem enfrentadas, limitarão o desenvolvimento e a prosperidade das próximas gerações. O presente artigo constitui, pois, uma reflexão sobre alguns dos aspetos que poderiam contribuir para melhorar esse setor, e para melhorqualificar e capacitar as crianças e jovens do nosso país.

Muitos dirigentes escolares não são persistentes, e devem fazer uma supervisão de rotina relativamente às atividades didáticas dos seus professores,solicitando-lhes que façam relatórios relativos às suas atividades letivas, bem como uma reunião do corpo docente pelo menos uma vez por mês. Os relatórios apresentados pelos docentes são vitais para analisar a participação dos alunos no decurso das aulas, e os desafios enfrentados. Quanto à reunião mensal do corpo docente, serve para que em conjunto solucionem esses desafios ou preocupações, já que “duas cabeças pensam melhor do que uma”. Se os dirigentes escolares ignoram as atividades executadas pelos seus subordinados, os docentes vão ficar de braços cruzados, sem se preocupar com o futuro dos seus alunos.

Ao definir uma metodologia de ensino, é preciso saber primeiro:

  • A quem é aplicada essa metodologia? As metodologias diferem entre cada nível de estudo. Não deve ser usada a metodologia do Ensino Básico para ensinar os alunos do Pré-Escolar, pois cada ciclo ou nível de ensino tem as suas próprias metodologias.
  • Como aplicar essa metodologia? Se já há metodologias, é necessário saber aplicá-las. Isto é, é preciso saber a maneira ou forma de aplicar essa teoria.
  • Quem aplica essa metodologia? Ao aplicar essa metodologia, requer-se a aptidão do professor para atingir as metas, e assegurar que os alunos possam adquirir as teorias ou ciências transmitidas.

É responsabilidade dos diretores das escolas assegurar a supervisão dos professores seus subordinados. Com a supervisão competente de um diretor da escola, os professores dessa escola irão assumir assuas responsabilidades como bons profissionais, pois o superior tem competência para avaliar e aplicar sanções disciplinares aos docentes que não cumpram as regras previstas. Em virtude da carência do controlo dum dirigente escolar ou diretor da escola, os professores nem sempre cumprem os seus deveres como educadores:em vez de darem aulas, dão apenas apontamentos, ouescrevem no quadro algo que os alunos se limitam a copiar. Em certas escolas, alguns professores exploram os alunos:por uma cópia que custa só 0,50 dólares, os professores exigem que cada aluno entregue 3 a 5 dólares. Os alunos não têm coragem de fazer queixa, pois receiam ser reprovados ou ter avaliações negativas, tudo devido à falta do controlo dos diretores das escolas.

Em certo sentido, podemos dizer que alguns professores ensinam nas escolas só por necessidades económicas ou para procurar obter lucros individuais. A metodologia que esses professores usam, como dar apontamentos para os alunos copiarem, ou ausentarem-se sem dar esclarecimentos relativos aos apontamentos que foram entregues aos alunos, não produz o mesmo proveito, e só vai causar grande prejuízo para o futuro dos alunos. Qualquer nível de estudo requer a presenças dos educadores para prestar esclarecimentos. Desde o Ensino Básico ao Secundário, qualquer nível de ensino requer o acompanhamento presencial dos professores a fim de esclarecerem as dúvidas que os alunos têm. Os alunos não podem ser abandonados nas salas de aulas, como uma personificação do ditado: “Os gatos saem, os ratos pulam na mesa”. Nalguns casos, os diretores das escolas têm conhecimento das atitudes irresponsáveis praticadas pelos professores seus subordinados.Contudo,os diretores não têm coragem de revelar essas verdades; continuam a guardar esses segredos com o intuito de essas escolas continuarem a ter boa imagem juntodo público e para não sujar o nome da escola. No fundo, estão a defender-se. Isso é um dos problemas que estamos a enfrentar na educação timorense. A verdade deve ser dita, desde que a crítica seja construtiva para o bem comum;a pior coisa do mundo é reconheceros próprios erros. Com essas violações crescentes nas escolas públicas, geram-se problemas maiores na educação timorense. Na minha ótica, certos docentes praticam esses atos devido às suas condições de remuneração, pois alguns professores não estão enquadrados no quadro permanente da Função Pública. Alguns têm uma menor remuneração e não estão a ser beneficiados pelo Regime Especial, para poderem ter justas condições salariais.

Numa escola ideal, é necessário que exista uma Associação de Pais bem organizada e estruturada. O intuito da criação dessa associação é os encarregados da educação terem contacto próximo com os professores da escola e acompanharem o progresso do estudo dos filhos. Para além disso, uma Associação de Pais permite aos pais coordenarem-se para dar à escola os seus contributos, seja ao nível material ou financeiro, ou ao nível de ideias construtivas para o melhoramento do ensino e para o crescimento moral e espiritual dos alunos. Trata-se aindade uma forma adicional de assegurar que os estudantes não desperdiçam o seu tempo em coisas inúteis,pois tal como acima referido, os professores têm contacto próximo com os seus encarregados da educação. Por fim, a Associação de Pais também pode ser o interlocutor próprio para os alunos terem a liberdade de expressar ou relatar algo que decorreu na escola sem medo de represálias, designadamente quando denunciem comportamentos abusivos de alguns professores (por exemplo:exploração ou cobrança ilegal). O estabelecimento da associação deve definir o estatuto ou normas que regulam essa associação e as competências dos pais.

Ensinar é uma arte. Vale isto por dizer que o professor precisa de ter arte para ensinar; puxar os alunos para apreender e adquirir as teorias transmitidas. Por exemplo, em vez de encarcerarem os estudantes nas aulas, podem criar uma atividade audiovisual ou ver televisão. Nessa atividade, depois de os alunos verem o filme, no regresso para a sala de aula, o professor pede aos alunos para que façam o reconto sobre aquilo a que assistiram na televisão, e relacionem isso com as realidades quotidianas. Nessa atividade, os alunos vão adquirir competências na compreensão e produção oral.

A maior parte das escolas timorenses não funciona conforme o padrão ideal. O padrão ideal, no ensino básico é de um máximo de 25 alunos por turma, enquanto que no ensino secundário é de um máximo de 30 alunos por turma. Na realidade, o que acontece, é que cada turma recebe entre 50 e 70 alunos. Com esse maior número de alunos de cada turma, com certeza os docentes não conseguem controlar os alunos nas salas de aula, e a participação deles vai ser mínima. O excessivo número dos alunos numa sala de aula impede o professor de gerir otempo da aula. Por exemplo, se o professor quiser desenvolver atividades de compreensão escrita e produção oral, precisa de tempo depois das apresentações, para fazercomentários e correçõesa cada aluno com intenção de que os alunos aprendam e não voltem a cometer os mesmos lapsos ou erros. Ora, com este número de alunos vai demorar dois ou três meses para terminar essas atividades.

O principal desafio que temos identificado no setor da educação em Timor-Leste é o facto de não haver um maior investimento. Temos recursos humanos produzidos por certas universidades, como a Universidade Nacional Timor Lorosa’e, e por algumas instituições privadas. Contudo, esses recursos humanos não estão a ser utilizados para irem dar aulas nas escolas.

As instalações das escolas também condicionam o ensino. De facto, as escolas públicas não têm biblioteca ou mediateca que funcionem padronizadamente. A existência de uma biblioteca é fundamental para influenciar os alunos e professores a terem hábitos de leitura. Vale aquio que referi relativamente ao investimento na educação timorense; é preciso instalar mediatecas nas escolas ou computadores com acesso à Internet, a fim de os professores terem informações atuais e saberem utilizar e navegar na Internet, pois estamos num mundo globalizado.

Os professores devem dedicar-se só a uma escola. Isto é, devem trabalhar o dia todo na mesma escola. Por exemplo, de manhã dão aulas e à tarde vão à escola para fazer pesquisa ou preparar as matérias para as próximas aulas.

Digo francamente, por experiência pessoal: grande parte dos timorenses não está habituada à leitura. Há dias publiquei um artigo no Facebook, e esse artigo é acompanhado por uma imagem do Cemitério de Becusse. O artigo falava sobre a maior taxa de mortalidade em Timor-Leste e estava escrito em tétum. Mas embora estivesse escrito em tétum, língua que praticamente todos os timorenses sabem, houve só duas pessoas que comentaram. Com base nesses dois comentários, constato que nós timorenses não temos o hábito de ler. Isso é uma das causas da falha da nossa educação: nas escolas, os alunos não são incentivados a ler ou a fazer uma leitura analítica para compreender o teor de um texto. Com o aumento da mortalidade, o Cemitério de Becusse já não tem mais espaço para permitir fazer o enterro dos falecidos. E as nossas autoridades, que têm obrigação de procurar uma melhor solução para satisfazer o público, deviam assegurar desde logo que existe apenas um modelo para cada campa,que os espaços de intervalo entre as campas não são ocupados indevidamente, e que dois ou três cadáveres possam ser sepultados na mesma campa. Se se confirmar a intenção doGoverno de criar o novo cemitério num lugar distante como em Metinaro, isso vai dificultar a vida daqueles que não têm condições económicas, e que terão que alugar transportes para a cerimónia fúnebre,entre outras despesas. No entanto, apesar de este ser um assunto muito relevante que deveria despertar a atenção do público, ninguém pareceu dar-lhe importância.

Esteartigo constitui um alerta, a fim de acordar os nossos Governantes a quem compete resolver este nosso problema da educação, em especial o Ministério da Educação. Pois diz Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” Caso não haja uma séria atenção, o futuro do país vai estar sob ameaça. E a educação em si é o “processo que visa o pleno desenvolvimento intelectual, físico e moral de um indivíduo (sobretudo na infância e na juventude) e a sua adequada inserção na sociedade”.(***)

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